João Alves-Carita

2009 / 27 Setembro

Xutos e Pontapés: 30 anos à vossa maneira!


Assisti a ontem a um dos concertos que mais me marcou… os adjectivos são poucos para descrever o fantástico espectáculo de luz, cor e, claro, música que os Xutos e Pontapés me deram… a mim e às mais de 40mil pessoas que encheram ontem o Estádio d’Os Belenenses no Restelo…

A moldura humana impunha respeito… as filas no lado de fora do estádio davam voltas e voltas e demoravam horas até que finalmente se podia pisar a relva ou a bancada…

A primeira parte desta noite memorável esteve a cargo de Os Pontos Negros, do Jonathas Pires e dos Tara Perdida, do incomparável João Ribas… Uma espécie de aquecimento para o que viria a seguir…

Uma hora depois de se calarem as guitarras dos Tara, o público já estava ansioso para ver a maior banda portuguesa e a única que se podia dar ao “luxo” de fazer um espectáculo como este (não esquecendo que os GNR já antes tinham feito algo assim)… Apagam-se as luzes… e o povo todo entra em histeria… ouvem-se gritos, palmas, tudo servia para fazer barulho e chamar por aqueles que estavam a celebrar 30 anos de carreira…

Acendem-se os ecrãs gigantes (os mesmos que os Rolling Stones usaram no Estádio Cidade de Coimbra em 2003) e vemos os 5 magníficos a ser transportados até ao estádio dentro de uma carrinha… «em directo? Gravado?» Era esta a dúvida que surgia nos milhares de fãs…

Dúvida essa que ficou logo, logo esclarecida… era em directo, os Xutos e Pontapés estavam ainda a chegar ao estádio… mas por onde iam eles entrar? Os olhares fixaram-se nos ecrãs e no palco, sempre à procura de um cantinho onde se pudesse avistar alguma movimentação…

Surpresa das surpresas… os heróis daquela noite desceram à terra… e atravessaram TODO o estádio no meio da multidão… para júbilo dos milhares que tentaram dar um abraço, um “passou-bem”, um beijo, ou apenas tocar nos seus ídolos, mas uma verdadeira dor de cabeça para os seguranças que tentavam suster essas iniciativas… Um gesto de humildade que não deixa de ter o seu risco…

Começa o concerto com um dos êxitos mais recentes: “Quem é Quem”… o puxar da guitarra por parte do João Cabeleira, aqueles solos fantásticos, com a distorção própria da guitarra eléctrica foram o lançar dos dados para uma noite memorável…

Um alinhamento que pretendia agradar a gregos e a troianos (leia-se a pequenos e graúdos, fãs do “antigamente” ou fãs mais recentes)… Do êxito recente, vamos regressar atrás no tempo para pôr tudo numa só voz a cantar “Não sou o único”… e de facto não eram… tinham 40mil pessoas a cantar com eles e todos olhavam para o céu… No fim de contas, toda a gente tinha a consciência que estava ali para testemunhar um feito único…

Vendo o “Mundo ao Contrário”, os Xutos ainda nos “contaram histórias”… e de facto para quem não foi ao Restelo… foram histórias que não viram…

E “Enquanto a Noite Cai”, os Xutos e todos nós cantávamos ao som de “Gritos Mudos”… e insistíamos em “Remar, Remar”… em forçar a corrente…

Depois deste reviver da história da banda, lá voltámos ao mágnifico som do novo álbum… e nas asas do “Falcão” (desculpem, mas adoro esta música… isto depois do Cabeleira ter de trocar de guitarra), levantámos voo para ouvir PacMan dos Da Weasel declamar o poema do “Sangue da Cidade” e vermos que de facto a música dos Xutos não nos deixavam num “Perfeito Vazio”…

Já lá ia sensivelmente uma hora de concerto mas muito mais ainda estava para vir… Tim fica sozinho em palco e com uma guitarra acústica começa a tocar alguns acordes… estava para vir a parte acústica do concerto… enquanto todos os olhares estavam centrados no baixista que é vocalista, todos os outros tinham desaparecido do cimo do palco…

Enquanto Tim caminhava pela “cauda” do palco e ia arranhando naquela guitarra com 12 cordas… as luzes começavam a acender e surpresa das surpresas, novo palco tinha sido montado em instantes… num palco “secundário” onde seria feita a parte acústica. já com a colaboração de Pedro Gonçalves dos Dead Combo… os Xutos sentaram-se e vinha aí um daqueles momentos de agarrar-mo-nos às nossas caras-metade e cantar em uníssono…

Foram 30 anos de vida, 30 anos na estrada… e como seria de esperar “O que foi não volta a ser”… e se havia uma música que os Xutos fizeram para ser um fado… nada melhor do que Camané para ser o “Homem do Leme” e cantá-la…

Voltamos de novo à parte “rock” do concerto e a bordo do “Super Jacto” lá seguimos novo voo “Nesta Cidade”…

Um dos discos mais conhecidos dos Xutos não poderia deixar de estar e foi altura de se soltar o “Circo de Feras” para aquele que seria o início do fim da primeira parte do concerto… Depois de soltadas as feras, o público foi convidado a “Da[r] um Mergulho” no mar… e se não podíamos ir ao mar para dar o tal mergulho, os Xutos fizeram o favor de o trazer até ao estádio do Restelo… foram abertos os sistemas de rega do relvado e através de vários aspersores instalados junto ao palco… os Xutos deram um banho aos fãs… uma forma de refrescar o público, mas também de soltar a timidez que ainda poderia haver…

Já todos molhados pela “Chuva Dissolvente”, os Xutos e Pontapés continuaram “À Minha Maneira” e arrumaram tudo dentro dos “Contentores” para se despedirem do público presente…

Ainda faltavam algumas músicas e estava na altura do tão esperado encore… Zé Pedro aparece a deixar uma mensagem simbólica e a incentivar todos os presentes a não deixarem as coisas passarem por eles… num claro incentivo ao voto pediu aos mais novos que não deixassem que ninguém escolhesse por eles…

Começando o encore, foi o Kalú e o Zé Pedro que assumiram as funções de vocalista… primeiro com a música do “sr. Engenheiro” e “Sem Eira nem Beira” lá começou o 1º encore que mostrava que os Xutos não estavam sob a “Submissão” de ninguém…

Regressámos à “Classe de 79” sempre com um olhar no futuro e no presente com a dedicação do tema “Ai se ele cai” para aqueles que estavam a assistir pela primeira vez a um concerto dos Xutos e Pontapés…

Depois do “Dia de S. Receber” os Xutos voltavam a terminar o concerto na “Minha Casinha” e despediam-se do muito público presente…

O público não arredava pé e ouvia-se: “só mais uma, só mais uma”… Num coro improvisado começa-se a dizer que “de Bragança a Lisboa são 9h de distância”…

Sim, vinha ainda mais um encore… o 2º da noite e este veio mostrar que ainda havia alguma energia guardada para acabar de saltar como se não houvesse amanhã…

Com este novo encore, os Xutos mostraram que estão bem e recomendam-se e mesmo que eles não durem… as músicas vão durar “Para Sempre”… e novamente num coro improvisado… o final da música foi cantado à capela por um estádio à pinha… neste momento fiquei com pele de galinha e arrepiado (imagino como se estariam eles a sentir no palco)…

E por fim… os Xutos acabaram com a música da mulher mais portuguesa, de Portugal… foi “Para ti, Maria” que eles vieram, que eles continuam e que eles vão continuar…

No final de contas… 33 músicas e 3horas de concerto depois, o balanço só pode ser positivo… O “banho” de música que os Xutos deram, o misto de luz, som e pirotecnia também estavam no auge… e mesmo as falhas mais absurdas (como guitarras desafinadas e afins), passavam ao lado porque nós queríamos mesmo era música!

Eu já vi Xutos em muitos sítios, desde a palcos de Festivais Académicos, salas de espectáculos, palcos “provisórios”, à borla, a pagar… mas este espectáculo é algo que eu nunca iria perder nem vou esquecer tão cedo…

Xutos e Pontapés: 30 anos à vossa maneira!

*Fotos de Rita Carmo da BLITZ e de Manuel Lino do IOL Música.

  • Bem, não sou muito de deixar comentários… mas, esta reportagem do concerto dos Xutos, merece os Parabéns. Eu não fui, mas depois de dar uma vista de olhos, fico com pena de não ter ido. E claro que tudo o resto está muito bom, Bom trabalho,
    Abraço,
    Duda

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  • Pronto, conseguiste deixar-me com inveja e com pena de não ter ido!!

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  • até se me arrepiei toda de reviver isto tudo outra vez, puto 😛 *

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  • Como diz a música de Rui Veloso “O prometido é devido” por isso, aqui venho deixar o meu comentário a este post que eu me atreveria a chamar de obra-prima!
    Como já te tinha dito achei fantástica a maneira como descreveste o concerto, as reacções do público e também a maneira como foste introduzindo o alinhamento do concerto:)
    Como a Cascona já disse também me deixaste com inveja de não ter ido mas a verdade é que quando acabei de ler o post fiquei com a sensação de que também tinha lá estado, por isso continua a escrever assim!;)
    P.S.-Agora deves tar todo inchado!xD
    Bjnhos seu convencido!:P

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