João Alves-Carita

2010 / 17 Setembro

Uma voz do céu!


Há pessoas que nos marcam muito mais num instante do que outras durante uma vida inteira!
Sim, estou a afirmar, não se trata de uma pergunta retórica…
Na ‘colina’ isso acontece com facilidade… Já aqui tinha falado do Mattia, mas agora tenho de falar da pessoa que mais me marcou… que me desculpem todos os outros que também foram importantes (há de haver um espacinho aqui para todos vocês), mas a Jana foi sem dúvida a ESPECIAL!
Primeira semana na ‘colina’… no meu grupo de reflexão bíblica tinha uma russa, uma ucraniana, duas polacas, dois el salvadorenhos, dois espanhóis, três britânicas e 5 checos!
Na quarta feira depois de mais um encontro de reflexão os checos convidavam-me para ir provar alguns bolinhos da República Checa… e eu, pronto para comer, lá fui! Chegado à camarata das meninas (elas é que guardavam a comida senão o Honza comia tudo!) estava lá dentro uma rapariga cega… eu já a tinha visto à noite na igreja, depois do Oyak fechar quando eu ia terminar e agradecer o meu dia… Fui apresentado e numa coisa simples as meninas checas apresentam-me como o João, a pessoa de contacto deles… Ao que a Jana responde que eles estão sempre a falar em mim… “Bem, espero eu!”, respondi-lhe… “Claro, sempre muito bem… És uma pessoa de contacto muito divertida!”, responde-me Jana.
A Jana era irmã do tal Honza (que já agora, é o meu nome em Checo) e se Deus lhe tinha tirado um dom (o da visão) dera-lhe outro: a VOZ!
Então a Jana continua a conversa: “De onde és?”
“Portugal” – respondi-lhe eu!
“Ah… Portugal… estive lá uma vez! Em Fátima! E comprei um livro sobre os pastorinhos… sobre a Jacinta e o Francisco”, dizia Jana, e continuava: “Já agora, como se diz ‘God bless you’ em português?”4
Neste momento caiu-me tudo aos pés! Eu já sabia que havia pessoas lindas no mundo… mas tão lindas assim? Geralmente numa língua estrangeiras aprendemos o básico (Olá, adeus, bom dia, boa noite, …) e os palavrões… Mas Jana não… Ela queria saber: “Deus te abençoe!”
E a conversa ficou por aqui…
Quinta feira é dia do irmão Alois, o prior da comunidade, falar aos milhares de jovens! Lá fiquei eu na zona com tradução em português, o meu francês ainda não é o melhor, e, como de costume, depois do irmão falar lá seguimos para o Oyak curtir mais uma noite! Às 23h30 é hora de recolha obrigatório ou para rezar! Como todas as noites lá voltava eu à igreja da reconciliação para rezar… afinal era esse o meu propósito lá: parar com tudo o que me ocupava e me distraia e dar tempo para escutar Deus…
Assim que entro na igreja sou recebido por uma voz maravilhosa… uma voz que já se ouvia na parte de fora da igreja (de tão potente que era) e que punha até os mais reticentes a rezar… Era Jana! Ela estava, como todas as noites, sentada em frente à cruz… e cantava! Só me fez lembrar o que me diziam na catequese: cantar é rezar duas vezes… então Jana, apesar de ter perdido a visão rezava… e rezava a dobrar! Senti-me mal comigo mesmo… por tantas vezes me preocupar com coisas tão estúpidas e fúteis quando a verdadeira felicidade não depende delas! Aproximei-me do grupo que com ela cantava (estavam lá os checos do meu grupo bíblico) e ao aproximar-me ela estica a mão dela para que eu lá colocasse a minha e ela pusesse a outra mão por cima… assim que ela fez isso eu só tive tempo de lhe dizer: ‘Hello Jana…’, ao que ela respondeu logo: ‘Hello João! Deus te abençoe!’… Sim! Tinha-me visto na tarde do dia anterior, ouviu dizer que ‘God bless you’ em português era ‘Deus te abençoe’ e na segunda vez que me via lembrava-se de mim, percebeu que era eu pelas minhas mãos e pela minha voz e disse Deus te abençoe em português! Comecei a chorar imediatamente… Aqui está um verdadeiro exemplo do que a vida deve ser: acção de graças por tudo aquilo que temos e somos!
De seguida Jana pergunta-me: “Qual é a tua música favorita?” E eu só pensava que das 153 do livro não conseguia escolher uma… então disse-lhe simplesmente: “… a portuguesa…”
E começa ela com aquela voz portentosa a cantar… “Cantarei ao Senhor enquanto viver, louvarei o meu Deus enquanto existir, n’Ele encontro a minha alegria, n’Ele encontro a minha alegria…” Foi um momento mágico! Se a ‘torneira’ teimava em não se ter fechado, agora muito mais facilmente se abria e as lágrimas já me corriam, eu soluçava… foi uma coisa fenomenal! A meio do cântico a Jana volta a esticar uma das mãos… “Quer estar de mão dada outra vez”, pensei eu! E quando ela fecha as suas mãos à volta da minha eu reparei que lá dentro tinha qualquer coisa… era uma uma cruz… ou melhor uma cruz e uma pomba de madeira… vinda da República Checa… e ela estava a dar-me aquilo! Um símbolo… eu que já tinha recebido tanto dela naqueles 2 encontros e me sentia em dívida ainda recebo uma cruz lindíssima para guardar… Por acaso tinha um fio na carteira e a primeira coisa que fiz foi pendurar a cruz ao pescoço e de lá só saiu quando cheguei a casa!
Quando chegava à 1h30 da manhã a Jana ia regressar ao quarto porque amanhã havia novo dia recheado de coisas! E assim que ela saia da igreja, esta enchia-se com um silêncio ensurdecedor durante os 30 minutos seguintes!  Ninguém se atrevia a cantar depois dela!
Chegava a sexta-feira e era o dia da tão afamada oração à volta da cruz! Uma que há 2 anos atrás com o meu grupo de amigos me fizera descobrir a verdadeira beleza e força do chorar! Como é que iria reagir desta vez? Estava com tanto medo que assim que terminou a oração da noite fui para o Oyak aproveitar mais uma noite e regressei à igreja novamente às 23h30… Jana estava lá! Mas desta vez não cantava… ela estava à espera… à minha espera! Jana ficou à espera de ir comigo para a cruz… quis que eu fizesse a caminhada com ela! Eu ia ter o privilégio de a acompanhar até à cruz e de juntos rezarmos! Essa caminhada que não sei quanto tempo durou, mas que ainda hoje guardo com carinho no meu coração foi algo impressionante… sempre de mão dada lá íamos os dois dando passos pequeninos conforme a fila deixava e ao meu lado tinha também o Pedro e a Nádia (sim, vocês também vão ter direito a um post aqui!)… e no meio de tantos cânticos e algum choro lá chegámos à cruz! Disse a Jana onde ela se poderia ajoelhar e colocar a sua testa sobre a cruz e eu fiquei ao lado! A seguir a mim estava o Pedro e depois a Nádia… Ao contrário do que aconteceu há 2 anos não tive necessidade de pedir, de agradecer, de rezar, nada… simplesmente fiquei no meu lugar, de olhos fechados, a cantar o cântico que na altura começara (o Pedro bem pode dizer o efeito que isso lhe fez!)… fiquei o meu tempo à volta da cruz simplesmente a cantar e a tornar-me mais leve por dentro! Depois desse momento a Jana retirou-se para a camarata (esteve mesmo só à minha espera!) e eu fiquei mais um pouco… vimo-nos no sábado à noite, na mesma rotina, mas depois disso nunca mais a vi….
Hoje tive uma bela surpresa quando na minha caixa do Facebook tinha isto:
Hallo Joao! I am Jana from CR! It is facebook from my sister, because I have no facebook. Many greetings I send to you! How are you? Thank you, Honza said to me, what you told about this small cross. Thank to God! Now I have holidays, but on monday I finaly go to my favourite studies- christian education, so I am happy. And you? Have you lot of work? I want to talk with you on skype. Have a wonderful time and remember that nothing can ever come between us and the love of God! God bless you!!! Jana 
A Jana não se tinha esquecido de mim! Mais umas lágrimas me correram pela cara e o sorriso do tamanho do mundo ocupou a minha face! De facto a Jana foi A pessoa mais especial que conheci em toda a minha vida!
Embora venha ainda a amar alguém na vida de uma forma apaixonada, não tenho problemas em afirmar que AMO a Jana por tudo aquilo que ela me deu e representa na minha vida! Jana, Zdravíčko!
Quanto à cruz? Pois bem… essa é outra história completamente diferente! Fica para amanhã!
  • Não me canso de te ouvir contar esta história porque é simplesmente a melhor que já ouvi até hoje!

    Deus realmente actua em nós de maneiras incríveis e quando menos esperamos. E a Jana é um grande exemplo de como Deus está presente na pessoa mesmo ao nosso lado. Diria mesmo que ela traz Deus dentro dela.

    São pessoas assim que enchem a nossa vida. E mesmo sem a conhecer fiquei a gostar dela e com inveja de ti por esta experiência!

    Obrigada por teres tu também sido sinal de Deus ao partilhares isto! E um dia também quero conhecer a Jana! =)

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  • Tiveste muita muita sorte por Deus ter colocado uma pessoa assim no teu caminho 🙂
    Sei que todos os sentimentos que expressaste aqui são a mais pura verdade. Ainda me lembro de como os teus olhos brilhavam e como estavas feliz quando me contaste esta história na colina 🙂

    God bless you, João *

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  • Estou tipo, sem palavras, a sério, de ler o teu relato deu-me uma vontade de chorar brutal, memórias, recordações T.T

    Também tenho falado às pessoas que este ano na “colina” encontrei alguém santo, que tinha a certeza que, se a santidade ainda existe neste mundo, aquela senhora o era, indubitávelmente. Até causei inicios de uma discução com uma rapariga evangélica uma vez sem querer, seca.

    Muito bom trabalho, ganhaste um seguidor do teu blog ^^

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  • Hello João!

    Your post is really beautiful! The memories of Taizé lead me to very sentimental mood..

    I met Jana (I call her Janička – in Czech we have many forms of every name) two days ago and she asked me to find out your e-mail address and to send it to her. But she resolved it more quickly, I see :).

    Yes, Janička is special person! She shines God´s Love. I´m glad I can spend some time with her!

    So, João, don´t forget these impressions! It can help you in dark times.. Ať Ti Bůh požehná!!
    + Helena (one of 5 checos :))

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  • So consigo dizer duas palavras depois de ler este texto : Simplesmente LINDO!!

    Obrigado por o partilhares 😉

    “Parvinha” 😛

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  • Simplesmente sem palavras, ate porque neste momento as lágrimas falam por mim:)

    Agora ao ter lido o teu post, percebo melhor aquilo que ontem falavamos, e o sentimento com que vieste de lá.

    De facto o teres experenciado todos estes momentos com jana, devem ter sido tão especiais e marcantes. Depois de tudo o que viveste e aprendeste lá só t podes considerar uma pessoa de sorte.

    Joao muito muito obrigada por este teu relato e partilha daquilo que foi um tempo passado nesse sitio mágico:)
    Amei:)

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