João Alves-Carita

2011 / 25 Agosto

Uma noite em Cuatro Vientos


Existe um espectáculo único no mundo: a noite da vigília do Papa em cada Jornada Mundial da Juventude. Só quem viveu uma JMJ faz ideia da força de transformação que essas jornadas deixam nos jovens, da experiência de fraternidade e de comunidade que elas deixam marcada na alma. 

São três da manhã em Cuatro Vientos. Vou atravessar o campo de ponta a ponta, dentro dos limites estabelecidos pela segurança. Saio da área da imprensa, onde muitos companheiros dormem, e comprovo mais uma vez que, como quase sempre, a festa é ‘lá fora’. A maré humana engole os meus passos rapidamente, centenas de jovens vão e vêm pelas avenidas, falando tranquilamente, ou rindo e a divertirem-se. Ecoam tambores sem parar numa música incessante que muda de tons e de matizes, mas cuja intensidade não diminui.

 

Apesar da pouca luz, vislumbro os recintos cercados, cheios de sacos avultados pelos corpos que dormem. Mas milhares de jovens preferem não dormir. As improvisadas avenidas são concorridas como o centro de qualquer grande cidade. Muitos jovens aproveitam para usar as casas de banho ou para comprar comida, ou apenas para sentar e conversar. Outros fazem grandes círculos e dançam sem descanso, e, como de costume, quanto mais barulho, mais gente chega. A maior parte fala, ri, brinca… De vez em quando passam ambulâncias do serviço de emergência, que vão fazer horas extras por causa do tremendo calor que os peregrinos sofreram durante a tarde.

Passo ao lado de uma das tendas gigantes, derrubada pela forte tormenta que se abatera de repente sobre os participantes na vigília. A polícia já isolou a área, pois houve feridos ligeiros. Outra das grandes barracas vai ser desmontada, porque a estrutura ficou instável.

Os jovens que vão e vêm reconhecem-se pelas bandeiras ou pelos sinais da sua pertença eclesial. Há dois tipos de grupos que se estabelecem em Cuatro Vientos: uma é a da nacionalidade. Engraçado que em Espanha, um país castigado pelos particularismos, é curioso ver os jovens a levantarem as barreiras e apresentarem-se mutuamente. Vejo madrilenos a arriscar o catalão com raparigas de Barcelona, que valorizam o gesto e divertem-se muito.

 

O segundo grupo é eclesial. Jovens pertencentes a movimentos diversos cumprimentam-se e trocam camisolas e emblemas. Há grupos do mesmo movimento ou comunidade, mas de países diferentes, que se surpreendem por falar a mesma linguagem apesar de ser noutro idioma. O resultado da mistura é surpreendente: rapazes a vestir bandeiras dos Estados Unidos, bonés mexicanos ou chapéus que não combinam com suas camisolas, ou grupos de franceses e africanos que pintam na cara as cores da bandeira espanhola.

 

Os voluntários, a maior parte agora em ‘descanso’ até o amanhecer, aproveitam para se misturar e participar da festa. Falo com uma francesa. “Eu noto que a minha fé está a crescer nestes dias’, diz-me num espanhol bem correcto. Outra presença importante é a das pessoas consagradas: freiras e irmãos a dançar no meio dos outros nos grupos. Ao meu lado, um rapaz enorme, de algum país nórdico, fala em inglês com uma freirinha miúda, de hábito castanho. Mais à frente, um padre sul-americano, sentado num saco cama, de estola colocada, ouve um jovem que se confessa. Muitos conversam amigavelmente em italiano com um franciscano capuchinho, vestido com o hábito humilde e as sandálias. E é da mesma idade deles: não chega aos trinta.

 

Há grupos que só a sua presença desperta simpatia, como o volumoso grupo de libaneses que dorme no chão da avenida porque não havia mais lugar no sector reservado a eles. Outro grupo omnipresente na primeira fila em todos os actos do papa, com sua bandeira ao vento, veio da Síria. Grande parte dos peregrinos são belas adolescentes de rosto descoberto e sorriso nos lábios, com uma sensação de liberdade que talvez não tenham no país de origem. Há turcos cristãos, outra minoria que sabe muito de sofrimento. Parece que um grupo do Iraque também conseguiu chegar, e outro de quarenta etíopes, com a ajuda de várias associações cristãs internacionais que não vão conseguir encontrar neste oceano vivo. Ao longe, uma bandeira da Malásia. Um grupo da Nova Zelândia dorme ao lado de outro da Croácia.

Outro dos espectáculos da noite são as tendas de adoração eucarística, cheias ao ponto de muitos ficarem de fora. De joelhos e em silêncio, alheios ao barulho, cabeça inclinada diante da custódia, muitos, e bastantes deles adolescentes, vão passar a noite ali, ao lado do Senhor.
Levei quase uma hora para chegar ao extremo do campo, e só atravessei de lado a lado num sentido. Só vi jovens aproveitando a vida, com a energia da idade, exuberantes e alegres. Ninguém bêbado, ninguém drogado, ninguém a perturbar a ordem. Em momento algum tive medo, apesar da escuridão e da multidão. Pelo menos duzentos mil estão a dormir fora do campo, com mais dificuldades do aqui, porque lá não têm luz nem casas de banho. Vejo-os do lado de lá da cerca: só a cerca os separa dos de dentro. O espírito é o mesmo.
Não se vê o fim da esplanada. Decido regressar. São quatro horas, mas a festa não diminuiu. Para muitos jovens, é uma noite em claro, única, que terminará em algumas horas, com o nascer do sol e a oração do Angelus. Eles fizeram amizades, divertiram-se, conheceram outros jovens com as mesmas inquietações. Para alguns, talvez esta noite tenha mudado as suas vidas.

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