João Alves-Carita

2013 / 2 Agosto

“Sou a despejada que fala”


Até 2008, Cristina Fallaras viveu uma vida estável, trabalhando como escritora e vice-diretora de um jornal. Então, grávida de oito meses, foi demitida e deslizou para o estatuto de mãe desempregada e sem domicílio fixo. Um percurso tragicamente banal, na Espanha em crise. Eis o seu testemunho.

Chamo-me Cristina Fallaras e tornei-me a despejada mais mediática de Espanha. Preferia falar sobre outra coisa, mas entendo que a época e o país impõem este tipo de temas. Na terça-feira, 13 de novembro, pelas 19h40, pouco antes do início da segunda greve geral do ano em Espanha, um indivíduo do 20ª juízo de Barcelona tocou à porta do meu apartamento, na praça da Universidade. Ouviam-se já os helicópteros da polícia e os petardos dos primeiros piquetes de greve, que sempre dão um ar ligeiramente festivo a uma greve geral, quando se está em casa. No preciso momento em que o meu filho Lucas abriu a porta e disse: “Mamã, é um senhor”, deixei, ainda não sei por quanto tempo, de ser escritora, jornalista e editora, para me tornar uma despejada que pode testemunhar por escrito e argumentar diante de uma câmara de televisão. Um testemunho direto, na primeira pessoa, é muito cómodo e tem imenso impacto. A Santíssima Trindade do jornalismo: objeto, sujeito e análise, três em um.

Agora, leitor, imagine um terreno do tamanho de um país, uma área do tipo da pampa. Suspenda tudo e ponha-se a imaginar.

Está? Bem, então olhe para a enorme fenda, implacável e brutal, como aberta pela unha de um deus a rasgar a terra, que corta a superfície em dois. Do buraco emana um sopro gelado, como o de flor de parca [o relento da morte]. Veja igualmente como uma dessas duas partes (decretemos, por razões sentimentais, que é a da esquerda) cai no abismo, até se imobilizar, suspensa no escuro, arrastando todos os habitantes na queda, estupefactos, confusos. E roídos de culpa.

A outra parte desta terra que estamos a imaginar, e a que chamaremos Espanha, manteve-se no alto, temendo o risco de vir a ter a mesma sorte, com a certeza de que isso vai mesmo suceder, mas de uma forma menos grave: novos cortes nas áreas da saúde, da assistência social, dos direitos recentemente adquiridos pelas mulheres, supressão de alguns pagamentos, cortes salariais… O seu descontentamento é compreensível. Mas, em menos tempo do que levou ao país declarar que a democracia era tão indestrutível como airosa, os habitantes do bloco colapsado foram privados de absolutamente tudo. E entregariam tudo, de bom grado, saúde e futuro, para recolherem as sobras do bem-estar dos de cima.

A catástrofe

Escrevo daqui de baixo, da metade que se afundou. Já vivo há tanto tempo no escuro que os meus olhos se acostumaram à escuridão e distingo claramente os recém-chegados. Entre 2009 e 2010, dois milhões de trabalhadores foram parar ao desemprego. Dos seis milhões de desempregados, três milhões já não recebem nada, e os outros três milhões de cidadãos irão pouco a pouco perder um subsídio que, em Espanha, pode durar um máximo de dois anos. E desde 2011, centenas de milhares de despedidos vieram juntar-se a nós. Como há muito que em Espanha não se cria emprego, vamos vendo-os cair e abrimos espaço para se acomodarem. Sabemos todos que é inevitável.

Daqui, mal se distinguem os que ficaram lá em cima; é preciso um esforço de memória. Sabemos como vivem, o que comem, o que compram, como se vestem e se movem, porque ainda há pouco lá estávamos. Mas a miséria impõe os seus esquecimentos e acho que isso nos salva um pouco. Os de lá de cima, em compensação, não nos veem. Não podem. Restam os jornalistas, informadores que tentam, em vão, falar sobre a pobreza, os despejos, as razões para este ou aquele suicídio. Mas se nunca nos foi cortada a eletricidade, a água, ou ambas, a ideia de miséria é sempre romanceada. É por isso que posso hoje ser útil. É uma despejada que fala.

Claro que estou surpreendida por estar aqui em baixo. Um despejo é um processo longo, que começa com um despedimento, mas que nos apanha de surpresa, como se fôssemos apanhados de calças nas mãos. Nus, no meio da grande avenida que percorríamos de táxi de madrugada, mortos de riso.

Todos os dias, por volta das seis horas, o rádio da minha mesa de cabeceira ilumina-se, e uma frase prega-me um muro que me atira para o chuveiro: ganhar a vida. De facto, a vida não é nossa, é preciso ganhá-la. E quando não se ganha a vida, o que acontece? Perde-la, não? E a cada dia sou apanhada outra vez de surpresa, completamente nua.

Escrevi “Pode acontecer a qualquer um”. Escrevi “Os meus filhos vivem abaixo da linha da pobreza”. E a 25 de janeiro de 2012, no jornal El Mundo, também escrevi “Estou para alugar”.

“Mulher branca, de 43 anos de idade, jornalista, escritora e editora. Altura – 1,69 m, 60 kg, ruiva descorada, olhos azuis. Estudos universitários, vinte e cinco anos de experiência em jornalismo em quatro jornais espanhóis, quatro estações de rádio e três cadeias de televisão. Seis livros publicados, incluindo quatro romances. Três foram premiados. Experiência na organização de redacções, equipas de trabalho, campanhas de comunicação, criação de páginas web e récitas de Gil de Biedma. Capacidade de escrever ou falar sobre literatura, política, economia, culinária, sexo, violência, edição, família e suas dificuldades, desemprego, crime, sindicalismo e penas, no sentido mais amplo.

Está para alugar para: pensar, cuidar de uma casa, mesmo que a missão inclua apanha de couves. Escrever todos os tipos de textos, de ficção ou não, correspondência incluída, mesmo que implique renunciar à respectiva assinatura, se for solicitado […]. Passear animais ou pessoas, de preferência pessoas. Este serviço inclui a conversa. Projectar ações de obediência ou desobediência, públicas ou privadas.

“Qualquer serviço que não esteja incluído na lista e que faça falta será amavelmente considerado e respondido. Dá pelo nome de Cristina. Preços a negociar. Se interessado, é favor contactar cristinasealquila@gmail.com. Para relações sexuais, sexo oral, strip-tease ou similares, é favor abster-se.”

Nua e aterrorizada, mas: é preciso falar. Falar do medo, formular a angústia, narrar a culpa.
Tive respostas. A maioria das respostas, apesar das indicações, com pedidos de serviços sexuais, por vezes muito imaginativos. Mas quase ninguém levou a sério a minha oferta. No entanto, era verdadeira, como tudo o que escrevo e publico no diário. Era tão verdadeira como o corte da electricidade previsto para o mês seguinte; tão verdadeira como as moedas contadas para comprar o leite dos pequenos almoços. Mas essas coisas, é preciso tê-las vivido para as entender, para estar consciente delas. Pensava que estava consciente e, no entanto, o aviso de despejo que me mandou o senhorio teve o efeito de um bloco de gelo que caiu como um peso morto ativando uma mola, deixando uma sensação de culpa. Nua e aterrorizada, mas: é preciso falar. Falar do medo, formular a angústia, narrar a culpa.

A negação

Chamo-me Cristina Fallaras, a desalojada que fala. Exactamente quatro anos antes da minha decisão de falar, numa manhã morna de Novembro, às 10 horas da manhã, precisamente na segunda-feira 17 de novembro de 2008, o director do jornal onde eu era directora-adjunta [ADN, um diário gratuito espanhol, pertencente ao grupo Planeta, que deixou de ser publicado em dezembro de 2011] despediu-me. Grávida de oito meses. Naquela época, a Espanha tinha 2,5 milhões de desempregados – achávamos que era um horror, o que é risível, hoje – e os presságios mais perspicazes previam que a crise larvar se prolongaria até 2010, talvez até ao início de 2011. Absurdo, respondíamos em coro, uma crise não pode durar tanto tempo! O governo de José Luis Rodríguez Zapatero falava de “brotos verdes”, de que já tínhamos batido no fundo e que tudo começava a florescer novamente. Pouco depois, o socialista injectaria milhares de milhões de euros nos bancos espanhóis. Dinheiro público.

Foi aí que começou o meu despejo. Pela minha demissão. E com que frivolidade se tomam estas decisões. Em novembro de 2012, o jornal El País despediu 129 jornalistas. Lembro-me de pensar: carne para despejo, venham daí, cá para baixo, arranja-se espaço. Como veterana – em 2008, os despedidos foram cerca de 800 mil -, sei quais são os passos que se seguem.

A saber: primeira etapa. Tenho bastante valor, sou uma grande profissional. Tenho a minha indemnização, uma boa quantia, e tenho o subsídio de desemprego. Pelo menos por um ano e meio. Respiro fundo durante dois meses, para descansar e engolir o sapo. Esta etapa dura pouco menos de um ano.

Segunda etapa. Está a acabar-se o subsídio, não devíamos ter feito aquela viagem. Vamos mudar as marcas de sabonete, de roupa, de comida. Prioridade para as crianças: que não se apercebam de nada. Tenho que montar qualquer coisa, uma empresa de consultoria, um pequeno negócio, uma agência de comunicação. Vou investir o que resta da minha indemnização para garantir o futuro da família. Estupores de políticos. A segunda etapa abrange todo o segundo ano.

A descida

Preciso de comprimidos. Se me cruzo com um político na rua, torço-lhe o pescoço.
Terceira etapa. Meninos, este ano não há férias. Amor, acabou-se o carro. Bolas, o subsídio de desemprego durou muito pouco. Agora, só as marcas mais baratas, e arroz a granel para os adultos, nada de roupas. A pequena empresa ainda não deu nada, como poderia ser rentável em poucos meses? E se afinal não sou assim tão boa profissional? E porque é que o meu companheiro não arranja trabalho? Se calhar não se está a empenhar muito. Preciso de comprimidos. Se me cruzo com um político na rua, torço-lhe o pescoço. Ou ao empregado do meu banco. Se me voltam a telefonar por causa do atraso da prestação, rebento. Preciso de comprimidos. A terceira etapa compreende os primeiros dois terços do terceiro ano.

Quarta etapa. Preciso de comprimidos mais fortes. Está tudo com meses de atraso: mensalidade da casa, água, gás. O banco já não me responde. Querido, a carne é para as crianças, eu com uma massa fico bem. É da minha vista ou estou a envelhecer como um raio! Ninguém nos telefona já. Vou ao supermercado; entretém a caixa enquanto escondo pasta de dentes e lâminas de barbear dentro do casaco. A quarta etapa termina com o despejo. O que resta de ti, agora, é apenas estatística.

Recordemos o momento quando tudo tremeu. “Mãe, é um senhor.” Enquanto o som dos helicópteros se junta ao ruído da greve geral iminente, eu espalho papéis de tribunal numa mesa e preparo-me para escrever um artigo para o sítio de El Mundo – é preciso contar, denunciar é uma necessidade que nos vai salvar -, para o meu blogue, mas isso ocupou a minha página principal demasiado tempo, praticamente o dia todo. Chamava-se Chegou o dia do meu despejo.

De manhã quando estou a trabalhar em casa não abro a porta a ninguém. Abrir a porta de manhã traz sempre más notícias. Mas quem toca à porta às 19:40 são geralmente vizinhos ou amigos.

Quando cheguei à porta percebi o que aquele homem trazia.

“Venho entregar uma notificação do tribunal.”

Com um maço de papel debaixo do braço direito, estende-me um papel com a mão esquerda.

“É a ordem de despejo?”

É a sensação dos adolescentes quando são confrontados com os “assuntos dos crescidos”.
Há algum tempo que a aguardava, desde que o banco me tinha dito que, se quisesse saber a situação do meu crédito, tinha de contactar os serviços jurídicos. Quando a banca nos fala em “serviços jurídicos”, sabemos que o assunto transitou para um departamento onde se fala uma língua diferente. É a sensação dos adolescentes quando são confrontados com os “assuntos dos crescidos”. Vão ter de passar por isso, compreendem, mas escapa-lhes o essencial.

“Bem, mais ou menos – hesita – Tem de se apresentar no tribunal e assinar isto.”

“E se eu não assinar?”

“Vai acontecer à mesma.”

Ouvem-se os primeiros petardos que aquecem uma greve geral que um espírito iluminado chamou de “greve política”, como se existisse outro tipo de greve.

“Crianças, venham à sala.”

O despejo

Assino tudo e fico sem alternativa. O tribunal de primeira instância número 4 de Barcelona no nº 111 da Gran via dos tribunais da Catalunha. Processo de execução da garantia hipotecária xxx/2012, Secção 2C. Requerente Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, SA. Procuradora Irene Sola Sole. Devedor Cristina Fallarás Sánchez. Os nomes do requerente e da procuradora estão em maiúsculas, o meu em minúsculas.

De repente do Facebook e o Twitter ficam loucos, os rádios e as televisões também, e anda toda a gente à minha procura.
De repente do Facebook e o Twitter ficam loucos, os rádios e as televisões também, e anda toda a gente à minha procura. O telefone toca. É o produtor de um programa da noite de grande audiência.

“Olá Cristina, já sabemos da tua história que queríamos convidar-te para vir à emissão a um debate.”

“Estou em Madrid para participar no festival Eñe de literatura.”

“Preciso que estejas no estúdio às 8 da noite.”

“É impossível. Isso é a hora a que acaba a minha mesa redonda. Na realidade tudo me parece complicado porque ainda por cima não tenho bilhete.”

“Não faz mal. Enviamos-te um táxi, pagamos uma noite de hotel e fazemos-te chegar um bilhete.”

Chego aos estudos da estação privada. Sentam-me ao lado de dois casais. O casal mais velho andará pelos 70 anos. Ela está preocupada com o cabelo e alisa o vestido num tique nervoso, está do outro lado do ecrã que se habitou a ver durante horas a fio durante uma reforma que sempre imaginou agradável. O marido, apesar do excesso de peso e da tez corada de macho rural instalado na cidade, parece já ter desistido. Vejo uma lágrima discreta cair-lhe da face.

O casal mais jovem inclui um homem já bem entrado nos quarenta, com uma mulher talvez uns cinco anos mais nova. No rosto a emoção de estarem num estúdio de televisão, um lugar quase mítico, reflete-se no seu ar espantado.

“Fomos despejados”, explica-me o homem no seu sotaque da Andaluzia. “Primeiro despejaram-nos a nós e agora vão despejar os meus pais porque eles foram fiadores quando comprámos o nosso apartamento”. E, com um movimento do queixo aponta para o pai. “Estamos os quatro a viver na rua com as crianças. A única coisa que nos resta é vir à televisão contar a história.”

A aceitação

Senti um murro no estômago. Um murro na cabeça. Que transparece na minha cara.
Senti um murro no estômago. Um murro na cabeça. Que transparece na minha cara. Subitamente já não sei o que estou a fazer ali, com estas quatro pessoas cuja provação me parece distante e estranha. “Isto é a última coisa que nos resta.” Como explicar que ainda não estamos todos no mesmo barco? Como explicar esta vontade súbita de fugir, chamar um táxi e voltar para casa?

Procurei desesperadamente um assistente de produção. Tenho de ter a certeza que não me vou sentar à beira de um precipício, à beira do qual pendem as pernas destas pessoas que olham para mim e perguntam porque estou aqui. Até aquele momento não tinha verdadeiramente percebido o que eu era. E sou assaltada pela dúvida: também serei um sem-abrigo? Estaria entre as centenas de milhares de pessoas que já não têm nada? Foi isso que me trouxe a este bairro dos arredores de Madrid?

“Desculpe, menina, pode dizer-me o que estou aqui a fazer?”, pergunto eu à assistente de produção. Na minha voz um sentimento de irritação mal disfarçado. A jovem olha para mim, surpreendida.

“Participar no debate! Fica sentada entre fulano e fulano, que dão a sua opinião e…”

Quase me desprezo por não ter conseguido, vou lutar, mas como tantos outros fui despejada de casa. Mas ainda posso contar a minha história e isso ajuda-me. E depois, às vezes, vomito.

Este artigo foi publicado pela primeira vez em espanhol a 12 de dezembro de 2012, na revista digital argentina Anfibia.

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