João Alves-Carita

2015 / 27 Dezembro

Os amigos de hoje…


“Temos de combinar!”, dizemos. E não combinamos. Não, não o vamos visitar. Não, não vamos marcar jantar algum, não, não vamos aparecer de surpresa. Não combinamos, nem vamos combinar. Dizemos isso à pressa, como dizemos tanta coisa, sem pensar, sem verdade. “Temos de combinar!”, porque temos de dizer alguma coisa. Mas não, não vamos combinar. E quem ouviu a promessa, sabe disso.

E o mais triste é que até gostamos da pessoa. O mais triste é que nem estivemos assim tantas vezes com ela, mas sempre que estivemos, adorámos. E o mais triste é que sabemos disto tudo porque até nos lembrámos, várias vezes durante a semana, que “temos mesmo de combinar”. E o mais triste é que nada disto importa porque não vamos combinar coisa alguma.

“Temos de combinar!”, gritamos, estridentes, num falso entusiasmo que é, na verdade, um nervoso miudinho de quem sabe que está a mentir. Porque não temos tempo, porque não temos vida, porque temos pressa em estarmos sozinhos, outra vez.

“Temos de combinar!”, juramos, prometemos, garantimos que é este mês, “durante este mês, tem mesmo de ser este mês, vai ser este mês e temos mesmo de combinar!”. E acenamos que sim com a cabeça e dizemos que sim com os olhos e a boca e escrevemos na agenda, à frente da outra, “e vamos porque precisamos mesmo disto e vamos, que é este mês!”.

“Tem de ser este mês, que no outro não posso!”

“Afinal, este mês não me dá jeito nenhum. Mas temos mesmo de combinar”.

“Temos de combinar!”, suplicamos já a nós mesmos que combinemos alguma coisa, com alguma coisa, tem de haver alguma coisa que dê para combinarmos. “Nem que seja um jantar, ou um chá, porque afinal um jantar não dá”.

“Temos mesmo de combinar!”

Não combinamos, mas até gostamos dela. Gostamos dos nossos amigos que vemos pela janela (do facebook). Gostamos das recordações e até nos rimos das nossas histórias, que já estão velhas, que nunca são novas, porque não as renovamos.

“Temos de combinar!”

Temos de combinar, mas não temos vida para isso. Devíamos era arranjar uma vida, porque esta vida de pressa, não é vida que preste, esta vida de pressa é só a nossa desculpa a andar muito depressa para fugirmos de alguma verdade.

Temos de combi …

Nem vou acabar uma palavra que já sabemos que é uma mentira. Ninguém combina.

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