João Alves-Carita

2014 / 20 Fevereiro

O tesouro


Foi desta forma que o irmão Patrick Prétôt definiu a Liturgia. O objecto de estudo para o meu primeiro dia de observação no IFM – o Instituto de Formação de Ministérios. “A Liturgia é um tesouro” – dizia -, e “é uma pena que as pessoas hoje não saibam o tesouro que têm à frente dos olhos”.

Como podemos nós então descobri-lo? Primeiramente temos de perceber que a Liturgia não é feita para aqueles que se acham inteligentes, a Liturgia é para as crianças nos braços da mãe ou para os deficientes mentais. A Liturgia não deve ser aquela gaveta que abrimos durante uma hora ao domingo,muito embora tenhamos o hábito de ‘engavetar’ tudo e irmos abrindo e fechando à medida do nosso interesse.

E a Liturgia é algo para as crianças ou para os deficientes mentais porquê? Porque é para ser vivida, não pensada. A Liturgia actua no coração e não na cabeça. Todavia a Liturgia tem o poder de nos afectar a nível corporal, afectivo, cognitivo e o coração. Pode também tocar a nossa alma já que a Liturgia é o encontro de Deus com o povo, quer a nível de grupo (na Eucaristia) como a nível individual (a Palavra diz-nos algo a cada um de nós individualmente, e de algum modo, coisas diferentes a todos nós). Porque é que a Liturgia afecta de tantas maneiras? Porque na Liturgia temos actos, cantos e outros ritos que nos podem marcar, temos pessoas a assumirem esses gestos que podem não nos ser indiferentes. Porque nós somos capazes de dizer “eu gostei” ou “eu não gostei”.

O Concílio Vaticano II define a Liturgia como o momento em que Cristo está presente na pessoa do ministro (o padre) e acima de tudo nas espécies consagradas (a hóstia). Mas também presente na Palavra, uma vez que é Ele que fala, através de nós.

Qualquer actividade na Liturgia deve por isso ser encarada como um ministério. Os leitores cumprem o seu ministério, os ministros extraordinários da comunhão indem, o coro também, etc. Deve haver uma preparação antes da nossa participação activa, especialmente na leitura, onde não estamos a ler um pedaço de jornal ou um anúncio, estamos a proclamar a Palavra de Deus. Porque continuamos nós a insistir que as crianças leiam durante a Eucaristia quando nem elas sabem o que estão a fazer? (Esta pergunta também tem de ser ruminada por mim já que defendia esta ideia errada)

Mas Liturgia não deve ser só missas e missinhas. A simples oração não é só uma oraçãozinha. Qualquer oração deve ser a Igreja a celebrar, foi Cristo a fazer-se presença: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” (Mt 18, 20). A Liturgia é o acto contínuo do Homem dar graças a Deus pelo dom que Ele nos passou pela Páscoa: a ressurreição e promessa da vida eterna no Reino.

Importa também saber a evolução da Liturgia ao longo da história, desde a noção de ‘Opus Dei‘ (a Obra de Deus) das primeiras comunidades para a ‘Officia divina‘ ou as ‘Cerimónias eclesiásticas‘ onde se insistia na Acção, onde havia a obrigação de assistir mas não a de se envolver e de se comprometer. Já no séc. XX encontramos o nome actual: ‘Liturgia‘, onde consiste a participação activa da assembleia.

Por fim deixo uma ideia. Ao contrário daquilo que, arrisco-me a dizer, todas as mães dizem aos seus filhos: “Não houve nada que eu não tenha feito por ti” – que provoca um sentimento de dívida, a criança está numa dívida eterna para com a mãe; a Igreja não nos coloca em cheque, não nos diz que fez tudo por nós, provocando assim uma vontade de dar graças, de agradecer e não a vontade de compensar, de pagar.

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