João Alves-Carita

2011 / 18 Setembro

O momento


Se tivesses de escolher um momento em todas as JMJ Madrid 2011 qual seria?
Fizeram-me esta pergunta esta semana e a minha resposta não foi a que a pessoa decerto esperaria…
Durante a semana das Jornadas Mundiais da Juventude não faltaram momentos de convívio, de oração, de reflexão, de encontro com Deus… mas não foi um desses momentos ‘típicos’ que respondi…
O momento mais marcante para mim foi a manifestação de quarta-feira na praça das “Puertas del Sol”.
http://4.bp.blogspot.com/-ce0xmf1aH-Q/Tk0x7gGFM4I/AAAAAAAABaA/VkxaAGYbtq8/s1600/contra+o+papa+450.jpgRecordo-me desse momento como se fosse ontem: tínhamos ido jantar Tapas num restaurante típico e brincado com outros jovens ou habitantes de Madrid que passavam nas ruas… fomos homens sombra, turistas com dúvidas… fomos fotógrafos e modelos…
Na praça ouvíamos barulho, muito barulho e pensávamos que era mais um encontro entre italianos e outra nacionalidade festiva. Ao chegarmos foi como um ‘baque’… centenas de pessoas de negro juntavam-se na praça gritando palavras de ordem contra o Papa e contra a presença dos peregrinos na cidade…  bandeiras gay e cartazes contra Bento XVI eram empunhados no ar…
A contrariar essa escuridão, uma dezena de jovens deu os braços e num cordão humano silencioso serviu de tampão à manifestação… o nosso instinto foi o de nos juntarmos a essa dezena… já devíamos ser 20 a olhar a multidão revoltosa olhos nos olhos…
Ainda recordo o olhar de alguns… os brincos que lhes furavam o nariz, as orelhas, o sobrolho… as cabeças rapadas e a barba comprida… assim que se aperceberam da presença de mais alguns peregrinos que entretanto se tinham juntado investiram… iam aproximando-se cada vez mais… nós recuávamos… até que começávamos a ficar cercados um pouco por todos os lados… o medo falou mais alto… “aos três encostamo-nos àquela parede e esperamos”… três!… todos recuámos… noutras pontas da praça outros grupos faziam cordões… cantavam ‘Benedito’ (Bento em espanhol)… havia mais focos de confronto verbal…
Ao nosso lado uma jovem ajoelhava-se… pegava no terço e rezava… pedia a Deus, à sua razão de viver, que afugentasse aquele temor… como os discipulos na barca tiveram medo da tempestade, também ela enfrentava agora ventos e marés contrárias… coragem era a palavra que passava nas mentes e corações de todos nós… vergonha também… afinal nós, um grupo, tínhamo-nos acobardado e afastado do centro da confusão… e esta rapariga, sozinha, ajoelhava-se ali… a rezar de olhos fechados… indefesa…
Um dos manifestantes decide provocar ainda mais e chega a escassos centímetros do rosto da jovem e baixa as calças… esfrega o ‘rabo’ no ar à frente dela para gáudio dos outros manifestantes… assisto a esta cena impotente… tinha os pés presos ao chão… mas alguém agiu… vindo de não se sabe onde, um pontapé atinge o rapaz manifestante… de verbais os confrontos passam a físicos… está na altura de sair… a praça não era mais um lugar seguro para se estar… em grupo afastamo-nos avisando todos os outros peregrinos que, como nós, eram atraídos pelo ruído, pensando tratar-se de algum grupo animado…
http://www.jn.pt/Storage/JN/2011/big/ng1612501.jpg Começam a surgir os primeiros polícias de intervenção… em Portugal já era notícia em todos os meios… as chamadas dos pais preocupados soavam nos telemóveis… a tentativa de tranquilizar o coração dos progenitores na capital… uma tentativa de acalmar o próprio coração… os olhos enchiam-se de lágrimas… que existiam ateus e agnósticos todos sabíamos… que ser católico está fora de moda também… mas que alguns nos atacariam pelas nossas crenças era, de facto, uma realidade nova…
Será que era isto que Bento XVI queria dizer quando lançava o desafio a todos os jovens que se tornem os apóstolos de Cristo em pleno século XXI? Onde em plena altura de crise social e de valores os jovens são os únicos que têm «as tintas e os pincéis nas mãos para pintarem um mundo melhor»… Somos todos chamados a ser testemunho, a agir em conformidade… a colocar a pessoa no centro e como o mais importante…
Porque ser cristão é ser igual a todos os outros, mas ser diferente ao mesmo tempo… é ser templo e igreja no meio da sociedade… é ser-se luz na escuridão…
É este o desafio… porque em todo o lado vamos encontrar manifestações… umas mais calmas que outras… com menos gente… mais silenciosas… mas outras ruidosas e povoadas… e em todas estas manifestações e em toda a nossa vida temos de saber dar uma boa resposta… a resposta do Cristo vivo que trazemos no peito!
  • Só Deus sabe o que passámos e sentimos naquela noite! Quem sabe não terá sido ele a pôr tudo isto no nosso caminho para nos mostrar o quão fortes e firmes n’ele conseguimos ser!

    Há textos bonitos, este é um deles =)

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