João Alves-Carita

2012 / 19 Junho

O emigrante


Tinha prometido partilhar como é o emigrante português por terras helvéticas. Aviso de antemão que a maioria das ideias pré-concebidas são parcialmente verdade.
Há então que fazer uma distinção entre os antigos emigrantes das décadas de 60 e 70 e os do ano 2000. Os primeiros eram acima de tudo trabalhadores manuais, de vidas esforçadas e cuja felicidade se prendia a um garrafão de tinto ou um copo de 3 na tasca da aldeia.
Estes vieram em busca de uma vida melhor, de um ordenado melhor para depois poderem construir uma bela casa em casa e gozar na reformado que amealharam lá fora. Estes portugueses mal saberiam o português, foram ‘forçados’ a aprender a língua estrangeira ou como refúgio encontravam trabalhos no seio de outros portugueses, uns ajudavam-se aos outros. Mas isto fazia com que as idas ao banco, ao supermercado fossem um suplício. Em terra de cegos, quem tem olho é rei, e era assim. O que sabia desenrascar-se no francês lá ia e fazia de interprete.
 
Hoje em dia é fácil reconhecer estes emigrantes. Têm trabalhos não qualificados, geralmente trabalham em mais do que num sítio. Hoje em dia já nem português conseguem falar, sai-lhes uma mistura de palavras francesas com sotaque português. Como o ‘giratório’ (rotunda, que aqui é giratoire). Ainda não estão completamente integrados, os amigos são portugueses também, convivem aos domingos na missa de língua portuguesa ou nas associações portuguesas espalhadas pela Suíça. Por isso ainda se engasgam quando têm de pedir qualquer coisa e o sotaque com o francês é típico. 
 
Quanto ao ‘aspecto’. Há a ideia por cá de que os portugueses tomavam banho apenas uma vez por semana (e eu que tinha a ideia de que eram os franceses). Terão pelo menos uma das duas características: bigode ou barriga. Pode ser que tenham também um cabelo com brilhantina, mas fundamental é a cruz d’ouro ao peito, numa camisa semi-aberta a deixar ver a penugem peitoral. 
 
Os filhos destes emigrantes também são engraçados. Ou vieram muito novos ou já nasceram cá, portanto o francês é a sua língua mais que materna, falando apenas o português em casa. É comum ver-se os filhos a serem os interpretes dos pais nos serviços, mas o diálogo entre ambos é de chorar a rir: o pai resmunga em português (sempre com um belo fod*sse ou um car*lho a juntar) e o filho responde ou pede coisas em francês. Normalmente os filhos são uma versão em ponto pequeno dos pais… se o pai tem bigode e usa brilhantina, o filho deixa a penugem crescer e lambe o cabelo para ir à missa.
 
 
Quanto ao estilo de vida, estes emigrantes são muito espalhafatosos. Há quem tenha bandeiras nacionais com rodas (onde o escudo está no tejadilho e depois o carro é verde e vermelho). Agora durante o Europeu todos passeiam com bandeiras nas janelas, nos carros, vestem camisolas, vestem bandeiras, fazem a festa. Não admira porque toda a gente torça para que Portugal perca. Há pelo menos um vizinho na rua que quando a selecção ganha faz a festa durante a noite toda (e a malta aqui dá importância ao repouso).
 
Já os emigrantes portugueses do século XXI. Vêm com canudos, prontos para mostrar o seu valor. Não trazem cruzes, trazem tecnologia. Cultivam a ‘qualidade de vida’, que é medida pelo número e valor das coisas que têm. As primeiras coisas a ter com os primeiros ordenados é ter a tecnologia de ponta: o iPhone 4S, um ‘granda’ computador e um carro. Aqui a opção cai em carros de grande cilindrada, muitos cavalos e que ‘bebem’ muito. Já vão tendo uma vida social mais activa porque já falam pelo menos mais uma língua que a portuguesa, então entendem-se em francês, inglês ou língua ‘gestual’.
 
Quanto a aspecto ainda não é muito marcado, muito por culpa da globalização. Parecem-se o mais normal possível, integrados com os restantes habitantes da Suíça. 
 
Já o pensamento é diferente. A saída do país foi feita de forma forçada por falta de oportunidades por isso muitos não pensam para já sequer no regresso e conhecendo as diferenças de estilos de vida deixam-se imbuir por ele e tão cedo não regressam à ‘casa’ que os despejou.

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