João Alves-Carita

2010 / 18 Outubro

O comboio de Lisboa sobre a água


Pegando na belíssima letra de Ary dos Santos escrevo sobre o que agora é o meu meio de transporte de eleição: o Cacilheiro!

(é favor ler enquanto se ouve Carlos do Carmo!)

Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

Havia muitas formas para atravessar de uma margem do Tejo para a outra… mas nenhuma é como o velhinho Cacilheiro! Viagem que tinha feito com os meus pais há muitos, muitos anos! Foi o matar saudades, o reviver emoções… e sem dúvida nenhuma a forma mais gira para aproveitar os recursos naturais de que dispomos!
Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.

De carro, em plena hora de ponta… conseguimos vislumbrar a maravilhosa vista que temos, ora sobre a cidade de Lisboa e as suas colinas, ora sobre a margem sul, sempre abençoada pelo Cristo
Rei lá no alto, de braços abertos a dar-nos as boas vindas… Sem trânsito ninguém olha para outro lado que não seja para a frente… De comboio, à velocidade a que passa e rodeado de todos os alicerces e suportes da Ponte pouco dá para apreciar…

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Desde que me lembro como pessoa que o Tejo tem estes pequenos barquinhos laranjas… Não querendo ser retrógrada, mas acho que eles nunca poderão ser substituídos pelos ‘modelos’ mais recentes… eles têm uma mística, algo que os transporta para uma outra dimensão… Vistos de frente parecem de facto que estão contentes… cumprem a sua função como nunca outro o fizera… gosto de pensar que contribuo para a felicidade do meu velho Cacilheiro…

Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.

Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.

Em média, uma viagem Cais do Sodré – Cacilhas (ou vice versa) demora uns 10 minutos… dificilmente de carro se faria uma média tão boa… dificilmente se apreciaria a natureza… dificilmente contribuiríamos para a felicidade de algo… dificilmente colocaríamos as colinas e bairros de Lisboa a brincar com este barquinho de papel…

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo

por uma criança.

Ao fim de umas viagens a bordo deste ‘barquinho laranja’ já me sinto também eu identificado com ele… sou um dos namorados, marujos, soldados e trabalhadores que todos os dias navegam nesse Tejo, outrora tão propício para os interesses nacionais… hoje em dia cada vez mais esquecido… em toda essa imensidão de azul há uma cor que se destaca… o laranja do Cacilheiro que parece que casa de forma perfeita com o Tejo…

Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

O Cacilheiro… esse barquinho de brincar, laranja, de aspecto tosco e pouco seguro, mas que ainda muitas alegrias traz a quem nele viaja diariamente!  
Um dia levo-te a passear de cacilheiro… escolhe o dia!

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