João Alves-Carita

2011 / 2 Maio

Karol Wojtyla: o beato dos jovens


Junto ao túmulo do Papa João Paulo II, na cripta da Basílica de S. Pedro, decorre silencioso um rio de peregrinos que carregam no olhar e no seu coração a memória viva do Papa próximo das gentes.
Corpo de João Paulo II
Entre a multidão, é surpreendente o número de jovens que acorre ao Papa estabelecendo com ele um diálogo de verdadeira amizade. Sentem-se acolhidos e compreendidos pelo Papa que sempre os procurou. Deixam bilhetes, flores ou agradecimentos pelas graças alcançadas. Uns pedem a conversão e mudança de vida, outros conselhos para questões quotidianas. Nestas cartas colocam o nome, cognome, número de telefone e até endereço, como se esperassem uma resposta. Escrevem a um amigo, a um pai a quem podem confiar e abrir o coração. O túmulo não é entendido como lugar de morte, mas de vida e uma vida plena. Aí dá-se um encontro com Deus que o Papa tornou visível com o seu testemunho. É um lugar de peregrinação não só no sentido devocional mas principalmente confidencial. Só uma relação verdadeira e profunda é capaz de perdurar e manter-se, mesmo quando os focos da comunicação social se desligam e a energia dos grandes eventos se desvanece. Seis anos após a morte, João Paulo II continua presente, continua a atrair os jovens e a comunicar-lhes uma mensagem de fé e de esperança. Como se pode explicar esta relação entre os jovens e o Papa?
Rejuvenescer com os jovens
Nos dias que antecederam a morte de Karol Wojtyla, com o agravar-se do seu estado de saúde, a Praça de S. Pedro enchia-se de grupos de jovens, que depois das aulas e do horário de trabalho, queriam acompanhar o Papa sofredor. Em muitas ocasiões João Paulo II tinha manifestado que dos jovens recebia força, alegria e conforto. Contactar com eles fazia-o rejuvenescer. Da praça, os jovens em coro aclamavam o nome do Papa, como era já habitual sempre que o encontravam: “Gio-va-nni Pao-lo”. A sua última aparição em público, a 30 de Março de 2005, foi precisamente para saudar um grupo de jovens vindos da Diocese de Milão.
Acompanhar o Papa na última viagem
Na noite de 2 de Abril de 2005, na Praça de S. Pedro, o ambiente que se respirava era de expectativa. As mensagens que a comunicação social veiculava informavam que o Papa Wojyla talvez não conseguisse resistir mais tempo. A recitação do terço, a sua oração predileta, uniu a todos num só sentimento e amor filial a Nossa Senhora. Quando a morte do Papa foi anunciada, um silêncio profundo, depois um forte aplauso, expressão de agradecimento e de vitória sobre a morte. Com lágrimas nos olhos, todos se abraçavam uns aos outros como se naquele momento se ouvísse: “saudai-vos na paz de Cristo”. Eram todos participantes de uma mesma família que tinha perdido um familiar muito querido. Os jovens estavam lá e acompanharam o Papa nesta última viagem. Ninguém os convocou mas sentiram-se espontaneamente chamados a estar presentes. Sem saberem, esta tinha sido a última vigília de oração com João Paulo II. Na noite anterior, o Papa tinha dedicado aos jovens as suas últimas palavras: “Procurei-vos. Agora sois vós que viestes a mim. Agradeço-vos”.
Os jovens são a esperança
A notícia da morte do Papa imediatamente se espalhou por todo o mundo, mas os primeiros a chegar a Roma foram os jovens. De mochila às costas e ao som de cânticos, invadiram a cidade eterna aguardando, em filas que chegaram a durar 24h, a sua vez para entrar na Basílica S. Pedro e prestar a última homenagem ao único Papa que até então tinham conhecido e amado.
Os jovens estão presentes no coração do Papa desde o início do seu pontificado. Após o primeiro Angelus em 22 de Outubro de 1978, olhando para os jovens diz: “Vós sois o futuro do mundo, a esperança da Igreja, vós sois a minha esperança”. Não foram apenas palavras, mas uma convicção interior confirmada pelo tempo. Ninguém podia imaginar o tipo de relação que se iria estabelecer entre o sucessor de Pedro e as novas gerações. Ao longo dos quase vinte e sete anos de pontificado, os jovens estiveram sempre ao lado do Papa, respondendo com entusiasmo aos seus apelos.
Ao encontro de Cristo através das JMJ
João Paulo II e os jovensNa proximidade do Natal de 1985, Ano Internacional da Juventude proclamado pela ONU, João Paulo II anunciou a instituição da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) na sequência do encontro que Deus “abençoou de maneira extraordinária” e que reuniu em Roma jovens representantes dos cinco continentes. O Domingo de Ramos, em cada ano, ficará associado à celebração da Jornada da Juventude para a Igreja. A primeira JMJ realizou-se na Praça de S. Pedro, em Roma, no dia 23 de Março de 1986. Nesse dia o Papa terminou a homilia explicando o significado da JMJ e a sua associação ao mistério pascal: “A Jornada da Juventude significa isto: ir ao encontro de Cristo, que entrou na história do homem através do mistério pascal de Jesus Cristo. Entrou de maneira irreversível. E quer encontrar em primeiro lugar a vós. Jovens. E a cada um quer dizer: ‘Segue-me, Segue-me. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida’”.
O Papa João Paulo II acompanhou dezanove edições das JMJ, oito das quais celebradas internacionalmente: Buenos Aires (1987); Santiago de Compostela (1989); Czestochowa (1991); Denver (1993); Manila (1995); Paris (1997); Roma (2000) e Toronto (2002).
Em Toronto, na última JMJ internacional a que presidiu, o Papa deixou aos jovens o seu testamento. Aí encontramos a razão da instituição das Jornadas da Juventude. O centro das JMJ é o encontro com Jesus Cristo, Deus connosco e consequentemente o encontro com a Igreja. “Se amais Jesus, amai a Igreja”. A relação com Cristo exige uma opção radical por Ele e o Papa não receia colocar a santidade no horizonte de vida do jovem, pois “a santidade não é uma questão de idade; trata-se de viver no Espírito Santo”. A visibilidade de uma Igreja com rosto jovem, que vive a fé com alegria, entusiasmo e empenho, abre o mundo à esperança de um futuro, onde reina o amor e a liberdade. “Vós sois a nossa esperança, os jovens são a nossa esperança! Não permitais que esta esperança morra. Comprometei a vossa vida com ela”. As JMJ tornaram-se no espaço privilegiado de encontro entre os jovens e o sucessor de S. Pedro. Ao redor do Papa, através da oração e dos sacramentos, principalmente a Eucaristia e a Penitência, os jovens sentem a sua fé confirmada e renovada.
A “opção preferencial pelos jovens”
O Papa Wojtyla nunca escondeu a sua “opção preferencial pelos jovens” e o que o move a encontrá-los tantas vezes: “Às vezes as pessoas perguntam-me: ‘O que lhe agrada mais nos jovens? Porque os encontra com tanta frequência? Porque dirigiu uma carta apostólica aos jovens e porquê a instituição da Jornada Mundial dos Jovens, celebrada cada ano no Domingo de Ramos?’ A minha resposta é muito simples. Eu confio nos jovens. Vejo neles o futuro do mundo, o futuro da Igreja” (Discurso aos jovens das Ilhas Fiji – 22.11.1986). O Papa ama os jovens porque Cristo os ama e a eles confia uma missão: serem construtores da “civilização do amor”, “sentinelas do amanhã na alvorada do terceiro milénio”. “Não vos conformareis com um mundo onde outros seres humanos morrem de fome, continuam analfabetos, não têm trabalho. Vós defendereis a vida em todas as etapas da sua evolução terrena, esforçar-vos-eis com todas as vossas forças por tornar esta terra cada vez mais habitável para todos. Queridos jovens do século que começa, dizendo «sim» a Cristo, dizeis «sim» a cada um dos vossos mais nobres ideais” (JMJ Roma 2000). As JMJ, uma das mais belas invenções do Papa, formaram decisivamente uma inteira geração de jovens na fé em Cristo. Esta é a geração “João Paulo II”, eis a sua herança.

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