João Alves-Carita

2011 / 9 Outubro

Jornalismo


O jornalismo é uma das profissões mais ingratas de sempre, onde todos sabem o que teriam feito mas não aceitam o que o jornalista fez.
O jornalista deve ser imparcial e manter a distância do que está a retratar. Não emite opinião nem faz juízos de valor. É isto que aprendemos na escola… o jornalista é uma máquina sem sentimentos, não se envolve, não actua na História! É um observador!
E se pela nossa observação uma vida humana se perder? Se estiver em causa o envolvimento na história em prol da humanidade (ou daquilo que achamos que está certo). Dou-vos um exemplo no vídeo acima.
O que devia ter feito a jornalista? Todos os que me lêem sabem o que teriam feito… mas no momento, depois da ‘formatação’ de que somos alvo… o que fariam? Alteravam a história (e habilitavam-se a morrer juntamente com a rapariga) ou ficavam como ‘outsiders’ e deixavam a história seguir o seu curso natural e usavam o vosso trabalho para alertar a sociedade? Para ‘prevenir’ que o momento se voltasse a repetir…
Mais um exemplo:
Esta fotografia valeu o Pulitzer a Kevin Carter em 1994. Suicidou-se pouco depois! Devia o fotógrafo ter afugentado o abutre que ‘esperava’? Devia ter pedido por socorro? Ou será que deveria ter-se mantido à margem, tirado a fotografia e esperar que servisse para consciencializar o mundo do flagelo da fome (como ainda hoje em dia é utilizada)?
O certo é que o mundo quando viu esta fotografia publicada no New York Times chamou-o a ele de abutre! Suicidou-se porque não aguentou a pressão com que foi recebido é uma das versões… a outra é que ele se suicidou por motivos alheios à foto, mas por falta de dinheiro e enorme acumulação de dívidas! Há ainda uma terceira, que nos ajuda a perceber o contexto da fotografia: João Silva, o foto-jornalista luso-descendente que perdeu ambas as pernas no Afeganistão em Outubro de 2010, estava com Carter neste dia. Diz ele que tinham descido com o avião da ajuda humanitária e que os pais da criança estavam a escassos metros à espera da comida dada pela ajuda internacional. Diz João Silva que Carter depois de tirar a fotografia afugentou o abutre. A verdade é que o mundo ‘ignorou’ esta versão… preferiu atingir Kevin Carter. A verdade é que a criança sudanesa acabou por sobreviver e morreu em 2007 de febre (notícia).
Os dois jornalistas foram premiados pelas fotografias (um na ficção e outro na realidade), mas garanto-vos que nenhum deles faria a foto a pensar nos eventuais prémios que poderia receber. Fê-lo porque o jornalismo retrata o que acontece, retrata a realidade. Fá-la chegar ao mundo, porque de outra forma seria abafada.
A prova de que os jornalistas não são máquinas, de que têm sentimentos está no remorso. Está no fazer o melhor após ter visto e mostrado o pior. Está no tentar tornar o mundo melhor mostrando o pior que o Homem é capaz de fazer…
Nenhuma das decisões de um jornalista são pensadas de ânimo leve. Há muitas contradições constantes, não é um trabalho fácil… aliás, tenho quase a certeza que a maioria, perante muitas das situações onde acusam o jornalismo, nem sequer teria a coragem de fazer aquilo que dizia que o jornalista devia ter feito!
Sou jornalista e sou-o com orgulho!
Por isso digo não aos ‘estágios’ não remunerados e à escravidão
(mas isso são outras questões!)

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