João Alves-Carita

2008 / 22 Outubro

«Como um rio que corre para o mar»


ETERNAMENTE

E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastámos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abóbodas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitectos e até teias de aranha suspensas no tecto, como se vigiassem a passagem do tempo.
Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplemo-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. (…)
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? (…)
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer [as flores] adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais nocturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade.
E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre.

Miguel Sousa Tavares in Não te deixarei morrer David Crockett

*****

Decidi pôr aqui este texto que me enviaram e falar um pouco sobre ele… pus também a negrito algumas frases que considero muito bem ditas neste emaranhado de informação…

Vou ficar-me por aqui e deixo para vocês as próprias ilações… Eu comentarei os vossos comentários…

O que acham?!
  • Catarina Fernandes / 22 Outubro, 2008 AT 8:19 PM

    Bestial! Aqui o Sr. Tavares sabe o que diz!
    Por mais afastados que estejamos, são as pequenas memórias de bons momentos passados com os amigos que prevalecem, apesar de só nos darmos conta disso quando saimos de cena, mas enfim…

    (Caso contrário trocariamos de pessoas como mudamos de camisola, e perdiamos a noção de nós mesmos…E isso não seria nada bom!)

    catarina fernandes

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  • “Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre.”

    sim, com textos assim ele não deixa morrer o David Crockett 😀

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  • “apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros”…O nosso maior erro é tomarmos as coisas por garantidas e não tomarmos conta delas. Mas as coisas vão e voltam, são materiais (e a maior parte delas nem nos serve para nada).
    Agora e quando toca a pessoas? As pessoas são esse rio que corre para o mar e que se não mergulharmos nele ele vai passar-nos completamente ao lado, pois ele não pára para que possamos dar conta.
    O que eu tiro deste texto é que nada na vida nos pertence verdadeiramente até deixarmos a nossa marca. Não impô-la, mas que ela surja naturalmente porque realmente tomámos conta das coisas, dos momentos, das pessoas.
    E tal como o Miguel, eu acredito na continuidade das coisas que amamos, porque se amamos ficam para sempre connosco, mesmo que não fisicamente.
    E foi o que me aprouve dizer sobre este texto!!
    Beijinho

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  • Fátima Eusébio / 9 Novembro, 2008 AT 5:31 PM

    Ai, ai… Complicado isto. A verdade é que comigo não caminha toda essa gente… Por mais que tenham sido importantes, as coisas acabaram por mudar e, de muitos, restam-me recordações de momentos. As coisas não ficam para sempre…
    Agora, se realmente os amámos, ficarão para sempre no coração, sempre connosco.
    Mas, é disso que vivemos?
    Terá sentido ficarmos agarrados a isso para sempre?
    Eu acredito em Deus… 🙂 E é a Ele que me “agarro”, para sempre!

    Beijinhos,
    Fátima Eusébio.
    (isto hoje vai em série :P)

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