João Alves-Carita

2008 / 12 Setembro

Carta


Num mundo das novas tecnologias, do electrónico, dos e-mails, do imediato, do já e agora…

E enquanto faço a produção do Fora de Horas no Rádio Clube Português tivemos um ouvinte que disse que TODOS os dias escreve uma carta a uma das suas pérolas mais preciosas, a sua neta com quase 4 anos… em cada carta tenta fazer alusão a algum acontecimento importante que se tenha passado… é como que «uma recordação viva do avô após a morte» como o ouvinte retratou em directo…

Portanto, vamos a contas, uma carta por dia durante quase 4 anos são perto de 1500 cartas! Absurdo? Doido? Chamem-lhe o que quiserem, mas eu fiquei emocionado com este testemunho e ando há horas a matutar sobre isto… Dou comigo a questionar (e a criticar) o que leva este homem a escrever uma carta diária para a neta… mas também a desejar que um avô meu me fizesse o mesmo… a dizer a mim mesmo: «quando um dia for avô vou tentar fazer o mesmo!»… É uma tamanha prova de amor e de testemunho de vida este que um avô pode dar a uma neta…

Mas dou-lhe, ainda mais, importância por ser algo manuscrito, pôr a caneta no papel, riscar, rasurar e escrever algo saído da alma e do coração para alguém que só irá ler aquilo quando ele já não estiver presente para que lhe dê um merecido abraço, daqueles que enchem o coração e permanecem connosco horas, e dias até, após ele ter acontecido…

É este prazer que me dá escrever em papel, do riscar, rasurar e não clicar numa tecla para apagar quando nos enganamos… O avô do séc.XXI teria, provavelmente, escrito um e-mail… mas o e-mail é algo impessoal, frio… Um manuscrito em papel tem vida, história, cheiro (quem nunca cheirou um papel antigo?)…

É algo que não sei explicar… mas este ouvinte marcou-me…

Gostava de facto que alguém me escrevesse uma carta…

Acabei por me lembrar de Taizé, dos postais que mandei a mim mesmo (sim isso mesmo) e que pedi às pessoas que escrevessem algo para mim e que eu só leria quando esses postais chegassem a minha casa… É bom sentirmo-nos queridos por alguém…

Hoje escrevo uma carta para aqueles que considero especiais para mim!

  • já não há pessoas assim, com esta entrega e esta dedicação. Que amor de homenzinho!! Já estou como tu, gostava de ter um avô que me fizesse o mesmo. Infelizmente já não é possivel. Gostei deste senhor mesmo sem o ter conhecido, sem o ter ouvido!!
    Eu até te escrevia uma carta, mas os correios estão caros!!E já gastei o meu latim todo num postal!:P
    beijinho

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  • concordo!!!
    começamos a comunicar através de cartas, já diz a canção: “cartas de amor quem as não tem”, é assim não é?? LOL era giro, mas tinhamos que arranjar um carteiro particular não fossem as cartas perder-se ou demorarem muito com uma possível greve dos correios!

    Também gostava de ter um avô que me dedicasse uns minutos do seu dia a escrever-me uma carta, aliás uns minutos da semana dele e eu ficaria radiante!!! Uma vez que isso não é possível, porque quem tinha coração para o fazer já cá não está, junto-me a ti e escrevemos os dois para os “respectivos” netos, sabes na altura posso já não ver bem as letras:P

    Beijo e adorei este avô pá!!!

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  • Pronto, eu comento este post pla segunda vez… já que o teu blog “comeu” o meu primeiro comment…

    É, sem dúvida, uma ideia fantástica e muito querida da parte deste avô que, por esta altura, teve ter uma legião de fãs espalhada por este país. Já tinha visto em filmes e lido em alguns livros histórias de pessoas que sabem que vão morrer e deixam cartas de despedida, gravações em vídeo e até cassetes com gravações de voz para serem entregues aos filhos a cada aniversário, e todas essas histórias me emocionaram. Mas este senhor… sim senhor! =) Tenho a certeza de que a sua netinha vai apreciar com muito amor cada linha que ele escreveu!

    Também tenho saudades de receber cartas manuscritas! Era tão mais pessoal…

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  • Engraçado este texto…A quanto tempo eu não escrevo uma carta! Que verrrrrgonha!!!

    O acto de escrever no papel é de facto um dos gestos mais humildes que as pessoas podem utilizar para comunicar. É quase que instintivo e não permite que se volte atrás e se apague para ficar mais bonito ou coisa do género (esqueçam por momentos a borracha ou o corrector, são dois instrumentos horríveis que vão contra a verdade do pensamento que se regista;)…).

    Quando era pequena, ainda começei a escrever um diário que de certa forma também acaba por ser um compêndio de cartas, que serão lidas mais tarde por seja quem for.A dada altura, desisti de o escrever. A preguiça venceu o gesto. Foi uma pena…
    Penso que é isso que existe hoje em dia nas pessoas para terem tanto medo de escrever …uma leve preguiçççççaaaa e ansiedade de pensar no amanhã e não no momento, a ponto de o registar…..

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  • Fátima Eusébio / 9 Novembro, 2008 AT 5:35 PM

    Oh 🙂
    A minha mãe diria “É porque já é reformado” 😛

    Eu digo, é porque gosta muito da neta e se preocupa com ela. Poderia “perder” o seu tempo com tantas outras coisas… Mas dá o seu tempo à neta… Que bonito 🙂

    Beijinhos,
    Fátima Eusébio.

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  • Continuo à espera da minha carta! Isto é, claro, se merecer esse lugarzinho!!:p

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