João Alves-Carita

2010 / 19 Fevereiro

Ao encontro das fontes da alegria


Éramos nove de entre mais de seis mil jovens. Nove desconhecidos vindos do Cacém que se juntaram numacarrinha para fazer os 325 quilómetros até ao Porto. O objectivo? Ir ao encontro das fontes da alegria! O veículo? A comunidade ecuménica de Taizé! No regresso, éramos 9 ‘irmãos’ com algo para partilhar…
Aqui não importa a cor, raça, língua ou confissão cristã! Como dizia a jovem Ana Afonso, de 22 anos, uma dos nove, quando à nossa frente um rapaz cego cantava os cânticos com tanto ou maior entusiasmo que os restantes: “Aqui nem é preciso ver, basta sentir!”. A VOZ DA VERDADE juntou-se a este grupo de jovens e partiu também rumo à cidade do Porto, para o Encontro Ibérico organizado pela Comunidade de Taizé.O que Taizé trouxe ao Porto…
Tirando o facto de mais de seis mil jovens andarem pelas ruas da cidade invicta e demonstrarem a sua paixão por Jesus Cristo, o que Taizé trouxe ao Porto não foi nada de visível mas de muito espiritual.
Tirando o facto de mais de seis mil jovens cantarem e rezarem em plenos pulmões o porquê de estarem ali, o que Taizé trouxe ao Porto foi um silêncio ensurdecedor.
Tirando o facto de estarem mais de 25 países representados e muitas línguas diferentes, o que Taizé trouxe ao Porto foi uma língua universal: a de Cristo.

E o que Lisboa trouxe ao Porto?
Muitos quilómetros depois, os nove lisboetas do Cacém lá chegaram à cidade do Porto. Fomos recebidos com um tempo que ameaçava chover e com “um calor fresquinho”, como amavelmente o apelidou Ana Lúcia, uma jovem da paróquia de Pedroso, em Vila Nova de Gaia. Depois do ‘check in’ no Pavilhão do FC Porto, a viagem tinha como novo destino a paróquia de Pedroso. O objectivo: saber onde iríamos ficar e com quem. A espera foi breve e rapidamente chegou ao fim. A Ana e eu ficámos em casa de um casal muito amoroso, a dona Olinda e o senhor Joaquim Fonseca, em Alheira.
Feitas as (muito) curtas apresentações estava na altura de voltar ao Dragão-Caixa e na oração da noite, o irmão Alois, prior da Comunidade de Taizé, fez questão de relembrar o Encontro Europeu de Lisboa em 2004, como reforço da hospitalidade portuguesa que todos já tínhamos vivido momentos antes.
Com base na “Carta da China”, escrita pelo próprio numa visita àquele país asiático, em Novembro, o irmão Alois mostrava-se atento ao que passava no mundo e na sua reflexão afirmava: “Em cada coração humano há a expectativa de ser amado e de amar”. Amor esse que é a água da vida da qual Jesus falava à mulher samaritana do Evangelho que tinha sido acabado de
ler: “Quem bebe desta água, quem acolhe este amor, não voltará a ter sede”, concluía o irmão Alois. Tudo isto é possível porque ‘Deus é amor: atreve-te a viver no amor. Deus é amor. Nada há a temer’.
A oração só terminou depois do momento de adoração da cruz, em que os participantes são convidados a ajoelharem-se perante a cruz e encostarem a sua testa. Deste modo poderiam confiar a Cristo os seus próprios fardos e o sofrimento do mundo. Quando coloquei a minha testa na cruz, todo o pavilhão pareceu desaparecer. O silêncio tomou conta de mim. Já não ouvia mais os cânticos que a multidão cantava. Este silêncio só foi interrompido por um soluçar, um soluçar de alguém que como eu estava a desabafar com Cristo e que rapidamente se tornou num choro abundante. Esse choro foi também contagiante e rapidamente as lágrimas me escorreram pelo rosto.

Escolher a simplicidade de vida
Domingo, Dia dos Namorados, iniciou-se com a Eucaristia no Mosteiro de Pedroso. Após a celebração eucarística, era tempo de celebrar o amor de Deus pelos jovens com um workshop sobre a Unidade Cristã. Na Igreja do Mirante, uma Igreja Metodista no centro do Porto, o workshop transmitiu um olhar sobre as várias confissões cristãs. Animado pelo bispo D. Sifredo, da Igreja Metodista, e pelo padre e missionário espiritano Tony Neves. Uma forma de celebrar o Ecumenismo, usando a ‘bandeira’ de Taizé, onde protestantes, ortodoxos, metodistas, católicos e
outros mais, rezam em conjunto. Um diálogo por vezes difícil mas que segundo os oradores é necessário e é o caminho que deve ser seguido.
De novo no Dragão-Caixa, um olhar para a sociedade cada vez mais informatizada. Num mundo onde são muitas as vozes que sobre nós recaem é importante distinguir a voz de Deus por entre todas essas. “Porque será que a riqueza material é frequentemente acompanhada de um fechar-se sobre si mesmo, com uma perda da verdadeira comunicação? Apresenta-se então para muitos de nós este forte compromisso: escolher a simplicidade de vida”, assegura o irmão Alois. Uma simplicidade que foi constante ao longo dos quatro dias do encontro. O luxo e a riqueza não tinham lugar nesta cidade do Porto, que se tornou n‘O reino de Deus é um reino de paz, justiça e alegria. Senhor, em nós vem abrir, as portas do teu Reino’.
Foi também tempo para a oração pelo povo do Haiti. Em Taizé o apelo chegou através da carta de um jovem haitiano, o Richard, no dia 21 de Janeiro. Um dos momentos altos do encontro, ao qual se seguiu uma imensa salva de palmas.

Jovens convidados a serem missionários do Evangelho
Segunda-feira foi tempo para um pequeno desvio ao programa da organização. Depois da oração da manhã e da reflexão, os jovens acolhidos na paróquia de Pedroso foram fazer trabalho comunitário. Uns foram levar a refeição às famílias mais carenciadas, outros foram levar a comunhão aos doentes da freguesia. “Espantoso o facto de como as pessoas mais idosas e menos lúcidas ainda conseguirem rezar o Pai-Nosso e traçar sobre eles o sinal da cruz”, comentava Sílvia Martins, uma jovem vinda de Coimbra e que comemorava neste dia o seu 17º aniversário. Um hábito que para dona Olinda, nossa ‘mãe adoptiva’ durante o encontro e ministra extraordinária da comunhão, é como “levar um pouco de luz e felicidade aos doentes”, porque ‘O auxílio virá do Senhor, do Senhor o nosso Deus, que fez o céu e a terra, o céu e a terra’.
Depois de um almoço partilhado no centro social de Pedroso, chegou a altura do último dia de orações no Dragão-Caixa. O peso era cada vez maior sobre o ombro dos jovens, pois é deles o futuro. O irmão Alois desafiava então todos os participantes a transmitir aos outros a confiança em Deus, para que coloquem o Evangelho em prática e o mostrem aos amigos. ”Todos conhecem jovens da vossa idade que, entrando na vida adulta, perdem a sua relação com a comunidade cristã, não necessariamente devido a uma decisão amadurecida, mas por causa de um simples encadeamento de circunstâncias. Será que são capazes de ir ter com eles e de procurar com eles como renovar uma ligação à fé?”, desafiava o irmão Alois.
Os jovens devem ser “missionários do Evangelho na vida quotidiana”, completava o irmão Alois. Uma tarefa difícil é certo, mas com Deus tudo é possível, porque: ‘A alma que anda no amor nem cansa nem se cansa’.

A festa da Luz
Todos os domingos são domingos de Páscoa em Taizé. Celebra-se a festa da Luz. No Porto, o domingo chegou na segunda-feira… cinco crianças acenderam as suas velas no sírio e começaram a espalhar a luz de Cristo pelos participantes. Em poucos minutos todo o recinto do Dragão-Caixa estava iluminado apenas pela luz que emanava das velas.
Apesar de não estar previsto, houve lugar a mais uma adoração da Cruz, motivada pela forma tão acolhedora como a cidade do Porto acolheu os irmãos de Taizé, algo que era visível no sorriso estampado no rosto do irmão Alois. Nesta altura comentei para quem estava ao meu lado: “vou cometer uma loucura!”. Dito isto, levanto-me e chego perto do irmão Alois, do bispo
do Porto e do irmão David. De todos recebi a bênção e D. Manuel Clemente diz-me algo que nunca irei esquecer: “Que Deus realize grandes obras através de ti”.
Outro cântico de Taizé recorda: ‘De noite iremos em busca da fonte de água viva. Só nos guia a nossa sede, só nossa sede nos guia’. Foi essa sede de Cristo que foi saciada. No final uma certeza: os nove jovens desconhecidos que vieram do Cacém tornaram-se ‘irmãos’ e juntos encontraram as fontes da alegria. Voltámos os nove para Lisboa com o objectivo de fazer com que essas fontes transbordem na diocese.

  • Joana Carvalho (Pedroso) / 19 Fevereiro, 2010 AT 8:11 PM

    Eu poderia estar aqui a escrever horas e horas que continuaria sem conseguir descrever da melhor maneira tudo o que senti, vivi e aprendi no encontro.
    Foram momentos únicos, onde me encontrei interiormente…nos momentos de oração, especialmente no colar a testa sobre a cruz, uma tremenda calma e paz interior invadiu o meu ser. Senti-me bem junto d’Ele, bem pertinho do seu coração, no calor do seu abraço, na segurança do seu colo.

    Lá nasceram amizades para a vida! Criaram-se laços que digo com orgulho, sem medo de cair, que são fortes e dotados do amor de Deus, do espírito Taizé. Amizades que digo confiantemente e, mais uma vez, com orgulho, que são as mais verdadeiras com as quais me deparei.

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  • Obrigado pelo regiso que aqui deixaste desa maravilhosa experiência!
    Concordo com a Joana: seria preciso muitas páginas para descrever tudo o que ali vivemos juntos. Mas em poucas palavras: a Graça de sermos Igreja unida!

    Gostaria de não esquecer a recomendação final do Ir.Alóis: levar a certeza de que “A alma que anda em Amor, não cansa nem se cansa.”
    Abraço a todos!

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  • Apesar de nao ter participado neste encontro, e de ja ter lido este texto (no sitio original:P)e só agora aqui. Devo dizer que não era preciso ter la tado para perceber o espirito que se deve ter gerado no porto atraves dest texto isso perceb-se claramente.
    Depois de já ter tado em taize, cofesso que não me consegui conter quando li a parte em que falas da adoração à cruz que é e será sempre um daqueles momentos mais profundos que se vive em taizé e que é um dos momentos que não se consegue explicar o quão intensa é, e tudo o que se vive.
    Parabens por teres conseguido transmitir por palavras tudo o que se viveu no porto durante estes dias, e que transmite tao bem o espirito de taize, especialmente a parte da adoraçao a cruz, me fez emocionar;)
    Taizé é alg tao itenso,e inexplicavel:)
    Sofia

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