João Alves-Carita

2018 / 4 Fevereiro

Ainda Janeiro


Sou um sortudo.
Até há bem pouco tempo era dos poucos entre os meus amigos ou colegas de trabalho a poder dizer « ainda tenho os meus 4 avós »… Mal sabia eu o valor dessa pequena palavra de 5 letras apenas : ainda !

Há três anos foi o meu ‘vô que partiu para um lugar melhor… E agora no espaço de uns meses são os meus avós maternos, primeiro a minha avó Júlia, que dizem tinha um jeito para a cozinha fenomenal, mas que eu mal me lembro dela. A distância não ajudava, as visitas 1 a 2 vezes por ano eram manifestamente poucas para se criarem laços e a doença com o nome alemão que teima em tirar-nos capacidades e aquilo que mais nos torna pessoas : a memória. Dela guardo o estar sentada ou deitada no sofá, os palavrões com que presenteava todos os que chegavam e o meu tio Carlos a puxar-lhe o nariz, o grande nariz. E ponto final. Não gosto, mas as minhas memórias acabam aqui.

E hoje foi o meu avô Alberto, o pai da minha mãe. Apesar dos laços serem também eles poucos ainda assim tenho mais memórias dele e com ele. Da adega sempre aberta para quem o viesse visitar e de uma vez me ter dado 1€ para um café, já era eu um homem feito. Ao almoço lembrava-me que tinha sido ele o primeiro a utilizar a carta « namoras com uma enfermeira ? Então toma lá a panóplia dos meus medicamentos ». Ou de como não podia matar as minhas maiores inimigas, as abelhas, porque o avô Alberto se zangava. Lamento também não ter muitas mais estórias, para a história fica a memória de um homem ; de um marido que, acredito eu, amava a mulher e não queria que ela fosse para um lar, mal sabendo que no final também lá ele iria parar ; e sobretudo de um pai. Um pai que fez o melhor que pode dentro dos tempos que eram outros mas eram os seus e que de certa forma está ligado à minha existência. Ele gerou a minha mãe, que me concebeu a mim. É por ela que estou neste momento num avião, porque não estive no funeral da minha avó, porque a minha mãe precisa de mim.

Ainda ‘ontem’ tinha os meus 4 avós. E agora estou a mudar a palavra por uma ainda mais pequena para « agora só me resta a minha vó »…
Fica a certeza que este mundo não é para velhos !

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