João Alves-Carita

2014 / 7 Abril

A religião fora de portas


Um dos meus maiores medos antes de emigrar era o de ‘perder’ a minha fé… Que coisa mais parva, uma vez que a fé não tem fronteiras nem línguas. Vivi exemplos desses quer em Taizé, quer nas Jornadas Mundiais da Juventude.

Mas se o meu francês não era assim tão bom, nem o catolicismo era o dominante neste cantinho da Europa central, então os meus medos tinham algum fundamento. Acabei por conhecer a Missão Católica de Língua Portuguesa cujo objectivo era muito vasto, desde o simples acompanhamento espiritual às comunidades lusófonas presentes na Suíça até à ajuda na integração numa nova realidade.

Desde que chegámos, há dois anos atrás, que nos oferecemos para ajudar. A catequese era o ponto de maiores necessidades: falta de formação e de preparação dos catequistas que resultava na falta de preparação espiritual das crianças. Os voluntários ajudavam com o que tinham e o que não tinham, mas a falta de reconhecimento aliada a atitudes pouco cristãs de falta de compreensão ou pouca vontade de entendimento davam azo a várias quezílias que para além de desmotivarem afastavam as pessoas. Os jovens não tinham lugar na Igreja e mesmo a participação plena estava reservada apenas para alguns. A missão era para todos os povos lusófonos mas na grande maioria apenas portuguesa; brasileiros e cabo-verdianos em muito pouco número, os ‘outros’ nem vê-los.

Desde fevereiro deste ano que tive o prazer, e a responsabilidade, de integrar a 100% a missão do cantão de Fribourg. Uma realidade diferente à partida, um cantão católico, onde a religião é dada na escola. Como poderia haver lugar para (mais uma) catequese? Um cantão bilingue: francês e alemão; um só sacerdote e uma assistente pastoral para seis comunidades. Tantos e tantos desafios e tanto tanto caminho a percorrer foi o que encontrei.

Há pouco mais de dois meses que sou agente pastoral ao serviço da missão e das comunidades de língua portuguesa. Não fazia sentido virar as costas a este chamamento de Deus uma vez que “a messe é grande e os trabalhadores são poucos”.

Há pouco mais de dois meses que temos focado o trabalho na animação eucarística, com trabalho junto dos grupos corais, lançando desafios e cânticos novos: cantar é rezar duas vezes; com trabalho junto daqueles que vão baptizar ou apadrinhar uma criança, levando-os a ver qual é a responsabilidade deste novo nascimento, desde ‘nascer’ no Reino; trabalho, muito trabalho junto dos catequistas, para que a catequese, de acompanhamento, que se faz não seja a mera doutrina e a aprendizagem de orações em português, para que seja a verdadeira ferramenta e aprendizagem para que as crianças de hoje se tornem nos cristãos responsáveis e comprometidos do amanhã; trabalho junto das comunidades (3) que apenas celebram, que são comunidades quase condenadas à morte, sem rumo, sem catequese nem rejuvenescimento; trabalho junto dos jovens para trazer até eles o Cristo Jovem que eu conheci e aprendi a amar, graças ao MEJ Shalom, um projecto com data marcada: Setembro! ; trabalho na comunicação da missão, logotipo novo, site de internet, presença nas redes sociais, um jornal , no fundo colocar em prática aquilo que três anos de faculdade e cinco no mercado de trabalho como jornalista me deram; trabalho junto das comunidades para que passem a barreira da fé como uma gaveta que se abre ao domingo e se esquece no resto da semana, na sua formação e compreensão do porquê das coisas; trabalho junto da sétima comunidade que se vai criar a partir de setembro, também.

Há muito trabalho, mas também muita vontade de trabalhar. Os sorrisos das pessoas que connosco se cruzam alimentam-nos todos os dias. E nós só queremos estar presentes para vos vermos felizes!

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