João Alves-Carita

2011 / 1 Julho

A esfera público-privada


Na rua, nas praças, nos grémios, nos cafés, nas igrejas, nos círculos literários, dentro de casa…
A esfera pública existiu em todos estes locais, de uma forma mais ou menos participada. Era ela que media o pulso da população e que de certa forma definia o modo de ser de um conjunto de pessoas. De acordo com Habermas, era o conjunto de várias esferas privadas.
Hoje em dia estas definições sofreram grandes alterações… As pessoas já não precisam do conhecimento, têm-no na internet… a memória tornou-se supérfula e desnecessária… Já não precisamos de saber os números de telefone de cor (o telemóvel tem memória para isso), já não precisamos de saber quando os nossos amigos fazem anos (o facebook avisa-nos, as agendas também tratam disso), já não precisamos de saber pesquisar e encontrar uma resposta… agora vamos ao google e a resposta é instantânea…
Hoje em dia não se aprende, nem se descobre, decora-se e deita-se fora depois de utilizada a memória…
Hoje fala-se em ‘cloud computing’ ou na navegação na ‘nuvem’, onde é possível alojar e guardar toda a informação algures num espaço invisível…
Hoje o ser humano deixou de ser o mais inteligente do planeta… passou a ser o mais acéfalo do planeta… O cérebro não é estimulado e mais dia menos dia tornar-se-á supérfluo…
A juntar-se a isto, as pessoas deixaram de se socializar, deixaram de criar esferas públicas como foram ‘estudadas’ e caracterizadas… hoje em dia as esferas públicas são, como tudo o resto, virtuais!
O tão na moda Facebook, ou outras redes sociais (LinkedIn, Twitter, etc), blogues, fóruns, etc, são as novas esferas públicas… as pessoas partilham o que pensam, sentem… manifestam-se a favor e contra… organizam-se revoluções… pode-se arruinar uma marca ou elevá-la com uma crítica…
Aquilo que antigamente se fazia num debate saudável e cara a cara hoje foi substituído por meia dúzia de caracteres, uma ‘identidade’ ou um ‘nick’… Não mais se aceitam os argumentos e se discute, mas associam-se aqueles que têm a mesma ideia evitando o debate ou o confronto de ideias… um simples ‘gosto’ ou ‘bloquear’ resolve todos os problemas…
Agora surgem os puritanos das redes sociais que acham que as pessoas se expõem em demasia… eu digo que quem não se quer expor não está nas redes sociais! E pelo simples facto de um comentário, uma partilha estar ou não no Facebook não quer dizer que ela não exista… simplesmente as pessoas antigamente partilhavam as suas convicções cara-a-cara nos locais acima citados, agora publicam-nas no Facebook… e mesmo aquelas que não as publicam continuam a pensá-las..
Orgulho-me de ter um perfil ‘público’ igual a mim, à minha semelhança… com as minhas ideias, com os meus pensamentos… Tudo o que partilho na web também o partilho da minha boca… e o que partilho na net partilho-o com o meu nome, não com um ‘anonimato’ falso ou com um heterónimo, como se de Fernando Pessoa se tratasse…
Agora tudo depende do que querem ‘ser’, vocês mesmos ou outra pessoa qualquer, um outro ser… A minha sugestão passa que se conheçam verdadeiramente a vocês próprios, que saibam o que são e o que querem e pautem a vossa vida por essa decisão.

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