João Alves-Carita

2012 / 9 Fevereiro

30,8%


Ainda não eram 7h. Os primeiros e tímidos raios de luz teimavam a romper a escuridão da noite por entre os telhados do Olga Cadaval.
À sua frente mais de 20 pessoas já esperavam a abertura das portas. Pessoas de todas as idades, extractos sociais e de diversos países. O frio esse atingia os 4º, de acordo com o termómetro do carro. Ainda era muito cedo para esperar que o sol aquecesse o ambiente… por isso volta a enfiar a cabeça no livro começado assim que chegara.
São agora perto das 8h da manhã e já a fila vai longa, chegando a dar a volta ao prédio. 60 páginas já tinham ficado para trás. Um casal cuja idade os cachecóis e gorros não deixavam prever mas que deveriam ter a sua idade (ou menos ainda) discutiam o ‘estado’ do Estado. Um pouco mais atrás na fila já pessoas conversavam e trocavam experiências, quantos dias já tinham perdido naquela fila, quantos dias ainda mais perderiam. Para ele era tudo novo, a primeira vez naquele lugar, num lugar onde nunca pensou ir. É do tempo em que um ‘canudo’ fazia maravilhas.
8h52. As portas abrem-se, as pessoas encaminham-se para dentro, mais à procura de calor ou de um sítio para sentar do que na esperança de uma boa notícia. Chega a sua vez, dão-lhe a senha e com ela a ‘previsão’: “às 10 horas”. Senta-se e tenta concentrar-se novamente no livro. Não sem antes reparar nos seus pares. Todos diferentes, mas ao mesmo tempo com muito em comum. A grande maioria sentia-se apta, pronta a… mas ninguém queria ver isso nem lhe daria uma oportunidade, ora por causa da idade, ora por causa das habilitações (a mais ou a menos, à escolha do ‘freguês’).
Em 10 minutos as senhas tinham-se esgotado. Sobravam algumas para que o segurança pudesse dar aos casos prioritários. Mas o que é prioritário no meio daquela gente? A resposta não tardou em chegar. Crianças! Quem trouxer uma criança pode chegar à hora que quiser e ser atendido/a de imediato. Caso contrário, escassos minutos depois da abertura da porta a resposta que ouve é: “volte amanhã, mas venha cedo!”. Até para se esperar tem de se chegar cedo… Alguns fazem um choradinho ao segurança e ele lá lhes dá uma senha mas com o aviso da previsão automática: “agora só lá para as 15h/15h30”. Ainda não eram 9h05!
O lento desfilar dos números no painel luminoso seguido do aviso sonoro era a única coisa que fazia trazer as pessoas dos seus penosos pensamentos. Nunca 19 números demoraram tanto! Eram já 10h30 quando o número 319 aparece no painel com o 0 e o 4 a seguirem-no. Piso 0, mesa 4. Era a mesa do ‘tartaruga genial’, um homem que lhe lembrava um malogrado professor do ensino superior. Um daqueles que era original e dava prazer ouvir contar histórias, mas não dava prazer nenhum ser avaliado por ele.
Chega e senta-se. O ‘tartaruga genial’ falava baixinho, talvez porque todos os que já se tinham sentado diante dele ou noutros dias sempre se tenham dirigido a ele desse modo: em surdina, como que a tentar esconder o que estavam a viver. “Tem cartão? Se não quero o BI, número de contribuinte e cartão da Seg. Social”, continua em surdina. “Se aceitar cartão de cidadão com tudo lá eu entrego-lho”, responde o jovem numa aparente boa disposição. Uma lufada de ar fresco e de novidade por aquelas bandas. O ‘tartaruga genial’ levanta a cabeça e encara-o nos olhos. Continua a entrevista de rotina sem saber que quem estava do lado de lá da mesa estava mais habituado a entrevistar do que a ser entrevistado. “Traz o papel para pedir o Subsídio?”, pergunta. “Não, que papel é esse? Nem sequer sei se tenho direito a isso…”, atabalhoa o jovem. O velho volta a levantar os olhos do balcão da secretária e fita o jovem: “Direitos? Não pergunte por direitos! Tem o direito a pedi-lo. Agora se tem direito a recebê-lo já não nos cabe a nós”. “Ah! É que estive a trabalhar a recibos verdes e…”, responde o jovem. “Ah! Devia ter começado era por aí! – corta-lhe a palavra o velho – Pode pedir, mas duvido muito que vá receber. Se fosse a si nem se chateava muito com isso, uma vez que teria de cá voltar”.
Começa então o velho a preencher a inscrição. Pega no Cartão de Cidadão e tecla o nome, letra a letra, sempre com o indicativo da mão direita, não sei antes se enganar. “O meu nome não tem dois P’s e é um J, não um G como acho que terá escrito – alerta-o o jovem – tenho o ‘mau’ hábito de saber onde estão as teclas no teclado… muitas horas ao computador sabe?”. Correcções feitas, preenchimento dos dados pessoais na ficha de inscrição e o programa informático bloqueia, vai abaixo. Baixinho se reclama com o sistema informático do lugar; com as obras que estão a acontecer em pleno inverno e que ainda prejudicam mais o normal funcionamento dos serviços; e com o estado do ‘Estado’. Reiniciado o programa, passa-se então para os dados profissionais. Habilitações Literárias? Licenciado. Em? Jornalismo. Concluído em? 2010. Respostas curtas e sucintas. De repente mais uma pergunta: “Profissão? Quer pôr Jornalista ou quer ser outra coisa? É que como as coisas estão vai ser difícil encontrar alguma coisa. É uma profissão muito específica. Porque não pensa em emigrar? Se bem que com a sua profissão também é complicado encontrar algo lá fora…”, divagueia o velho. “Ponha jornalista, só! Foi isso que escolhi fazer da vida e é isso que tenho feito e que quero fazer!”, responde de pronto o jovem.
Experiência profissional? 1 ano? “Não, cinco, desde 2006!”. Terminada a inscrição pergunta o jovem as condições que o Governo dá à entidade empregadora, possibilidade de Estágios Profissionais ou outros apoios. A resposta do ‘tartaruga genial’ é no mínimo engraçada. “A culpa é dos jornalistas, que debitam cá para fora todas e quaisquer medidas que ouçam nos corredores e depois elas não dão em nada. Ao tempo que se falam em apoios à contratação, mas ainda não há nada de concreto… são só ideias…”
11h. Saio do gabinente 4 e dirijo-me à porta. Agora sim, fiz o que me pareceu certo. Serei mais um a contar para as estatísticas deste país. Serei mais um a juntar à taxa de 30,8% de jovens licenciados e desempregados que Portugal tinha em Dezembro de 2011. De uma coisa tenho a certeza, não é com a inscrição no centro de emprego que vou encontrar trabalho porque sem trabalho e sem apoio à contratação, só mais apoio ao despedimento o futuro é sombrio. Aliás o futuro não é um prazo daqui a 5 ou 10 anos. O futuro é já o próximo ano, o próximo semestre. É impossível prever-se ou planear-se alguma coisa nos dias de hoje. Mas pelo menos serei mais um para os números… e eles valem o que valem… mas pelo menos mostram o que está a acontecer cá pelo burgo. Onde cursos com o mercado saturado abrem todos os anos com fornadas de caloiros, onde há mais do que uma ou duas escolas a dar essa mesma formação. Onde, no final, o facto C já não é de canudo, mas sim de cunha. E os que só tinham o canudo acabam como eu, a escrever textos sentados no sofá da sala, a ver séries na TV e a viver em casa dos pais. Porque são muito instruídos para um trabalho que não precisa de licenciados, mas que por deverem ser pagos a exercerem a profissão que escolheram para a sua vida a única coisa que encontram são estágios não remunerados.
Eu já faço parte dos 30,8%! Mas o que gostava mesmo era de poder fazer aquilo que mais gosto: jornalismo!

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